Pop Africa?
29 de janeiro de 2016 POR Jojo COMENTA AQUI!

Ontem foi Baile da Vogue. Eu só soube porque resolvi fazer uma pizza de couve flor no meio da noite e, enquanto ela assava, eu fiquei matando tempo vendo a vida do povo no Instagram. Em pé na cozinha, com a minha calça de moleton mais gostosa (leia-se: velha) e meias igualmente gostosas (leia-se furadas), abri o aplicativo e dei de cara com todas as celebridades e blogueiras mais badaladas do Brasil curtindo todas no tal baile.

A princípio fiquei com aquela sensação de: putz, que legal que deve ser essa festa, né? Monte de gente legal cantando, celebridades desfilando fantasias super elaboradas, bebida sobrando, picolé de graça. Sei lá. No mínimo, não deve ser ruim, né?

Mas eis que fui rolando a timeline e uma hashtag me chamou a atenção: #PopAfrica. Aparentemente, foi esse o tema escolhido para a festa esse ano. Historicamente, a revista sempre escolhe temas diferentes para seus bailes de Carnaval. Um jeito de inspirar as fantasias da galera, fazer todo mundo “entrar no clima”. E dessa vez não foi diferente. Foi um tal de animal print aqui, pinturas faciais e corporais ali, colar de ossos acolá. Todo mundo no clima “africano”.

E eis que a história toda começou a me incomodar. Primeiro porque não estamos falando de colombinas e pierrots. Não estamos falando de palhaços ou soldadinhos de chumbo. Nem de personagens de filmes ou de séries. Estamos falando de um continente. A ideia era fazer as pessoas se fantasiarem de um CONTINENTE. Um continente de vários povos. De várias culturas.  O problema dessa história é que se fantasiar é, por natureza, caricaturar, imitar, estereotipar. E foi isso que rolou solto ontem.

Mas vamos tirar as fantasias de cena e falar de outra coisa. Vamos falar sobre a revista que deu a festa e que escolheu o tema. Fiquei lembrando de um post muito bom que vi outro dia no Modices sobre representatividade brasileira (e negra) nas capas da Vogue. Aí resolvi dar um Google rápido pra descobrir quantas modelos negras a revista estampou nas bancas no ano passado. Em dois cliques achei a minha resposta: UMA, mas já vou avisando que ela não é brasileira. Naomi Campbell foi estrela de outubro ao lado de Ricardo Tisci e Mariacarla Boscono. Fora isso, Camila Pitanga e Gloria Maria apareceram na capa de abril em meio a 9 outras pessoas (brancas).

O meu sentimento foi coroado por declarações como a da Sabrina Sato em seu Snapchat. Deitada no sofá de casa depois da festa a apresentadora soltou um: “Queria ser africana e andar assim.”. Essa era a roupa dela:

Baile_Vogue

Ou de Yvan Rodic (nome por trás do badalado blog de streetfashion Facehunter) que também se pronunciou no Snapchat: “Uma festa com tema Africa, num país tão miscigenado e 90% dos convidados são brancos.”

Eu fiquei tão encafifada com tudo isso que resolvi lançar o debate no meu Snapchat e perguntar às leitoras o que elas acharam de tudo isso. Aqui vão algumas das respostas que recebi:

Fiquei com a mesma sensação e fui até conversar com amigas negras pra saber o ponto de vista delas sobre isso. O que as incomodou é que, sim a Africa é pop, mas o negro não parece ser. Além disso, incomodou a sensação de que a Africa inteira é uma coisa só e não um continente cheio de culturas diferentes.

“Eu achei de muito mal gosto. É péssimo, é colonizador e não é uma homenagem. É usar uma cultura (uma não né, porque o continente africano tem milhares de culturas, começa por aí) e transformar em fetiche, em fantasia. É se aproveitar do africanismo, enquanto africanos e descendentes são deixados de lado em tudo. É transformar em brincadeira de faz de conta elementos de resistência.

Uma pena que o racismo ainda seja tão presente, mesmo quanto não nos damos conta, ele tá ali.

“Tema estranho, apropriação cultural, tudo de absurdo. Ser negro tá na moda, desde que você seja branco.”

O assunto tá lançado. Não consegui ficar quietinha porque quando um troço começa a martelar na minha cabeça eu não consigo muito controlar. E esse aqui é o meu lugar de jogar pro mundo as discussões que acho que valem a pena serem discutidas.

Então vamos discutir? O que que você acha disso tudo?

 

 

 

  • Lis Schwabacher

    Essa frase aí de cima é a que resume melhor tudo que você escreveu e que falamos Snapchat; “Ser negro está na moda, desde que você seja branco…”
    A gente sempre se chateou com os “gringos” com o pensamento de que no Brasil tem macaco no meio da Rua, ou que aqui as mulheres andam peladas, ou que é carnaval o tempo todo e só, né??
    Não é possível que Sabrina Sato,que pode ter a cesso a qualquer, QUALQUER coisa que ela quiser; através de leitura, ou da mídia ou se viagens, PENSE que no continente Africano, as pessoas se vestem assim… sei nem o que dizer…

  • Mila

    Jojo, achei bem interessante seu debate. Infelizmente no Brasil as pessoas costumam ver a Africa como um único país. Uma pena, com tanta coisa diferente, cada pais diferente do outro. Nao sei como alguém pode achar que um continente que tem paises como Marrocos, Africa do Sul, Égito e Angola, é tudo a mesma coisa. Em relaçao aos negros, além disso tudo, o baile escolhe musas, que foi Tais Araujo e Gloria Maria. Achei tao forçado, sempre sendo pessoas brancas e só pelo tema África pop escolheram negras. Acabou o baile cada um pro seu quadrado. Agora um comentário a parte, de algo que me chama atençao, principalmente quando o assunto é Africa e negros. Porque Camila Pitanga é negra e Juliana Paes nao? Sei que hoje está um grande debate sobre isso, que as pessoas tentam mostrar que nao se deve nao querer ser negro, mas juro que fico pensando, no caso de Camila Morgado por exemplo, porque ela nao pode ser simplesmente mulata, ou parda, já que ela é filha de um negro com uma branca? Nao consigo entender porque uma mistura tem que ser “mais uma coisa que outra”.

    • Fabianne Arguello

      Porque termos como “pardo”, “mulato” e afins são uma tentativa histórica de embranquecimento em uma sociedade pós escravidão, que “importa europeus pra cultivar os campos porque não HAVIA MÃO DE OBRA (??????? e todos os negros recém libertos foram pra onde mesmo????). A intenção das autoridades era a de que os europeus enbranquecessem a populaçao brasileira, com os negrxs segregados nas favelas e deixados pra morrer de fome. As pessoas negras, pra conseguir trabalho (mal remunerado, subalterno, perigoso…) se apropriavam desses termos para afirmar que não eram mais negras, estavam no meio do caminho, se embranquecendo…
      Além, é claro, do estereótipo sexual que é muito carregado no termo mulata

      • Marianna Pedrini Bernabé

        Fabianne, acho nada ver essa de forçar as pessoas mestiças a se enxergarem como apenas como negras. Não há como forçar a um multirracial a ele se identificar apenas com uma etnia.

        O homem branco estuprou escravas durante séculos e agora devemos nos sentir envergonhados de nos identificar com meio brancos e meio pretos por quê?

        Sei que a imigração trouxe o “mito” do embranquecimento, mas tenho verdadeiro pavor a esses falsos moralismos carregados de tirania que querem impor o que pessoas são ou não são.

        Sou mulata e a causa negra é importante para mim (faz parte do cerne da cultura na qual estou inserida), mas não é por isso que vou negar minha ascendência latina, assim como toda a sua contribuição no contexto que nasci e sempre vivi.

        Abraço!

        • Fabianne Arguello
          • Marianna Pedrini Bernabé

            Não vejo a figura do mestiço como empecilho para a causa negra – o problema parte de como essa figura é usada.

            Lembro que li no livro Animal Farm, do George Orwell, o personagem mais importante da estória emergir através do uma figura “igualmente híbrida”, o burro Benjamim.

            Ele é, sardonicamente, descrito durante o livro como o único animal de toda a granja com força intelectual suficiente para fomentar uma crise na doutrina dos porcos. E essa condição parte justamente de sua figura insondável e indefinível.

            Isso por si só representa uma crise iminente, pois trata-se de um personagem lúcido por já haver nascido num eixo de crise e que, portanto, domina as falhas do sistema no qual está inserido – nunca é confrontado, e só não confronta pq está sozinho.

            O nosso mundo também teme a figura do “indeterminado”, “mulato” e “pardo” porque rejeitam um sistema de igualdade e procuram alimentar subterfúgios com roupagem pseudo-científica para justificar atos de exploração e dominação. Para isso precisam botar os pingos nos is e mostrar quem é quem. Indefinições (sobretudo raciais) nunca são bem vindas.

            Enfim, falei um monte só para defender a ideia de que apresentar-se como mulato, mestiço ou pardo não é necessariamente ruim para a causa nega. A questão é como se faz isso.

            As palavras não são escravas de sua etimologia e essa crise, interpretada como pessoal, é sobretudo política.

            Agradeço sua resposta e lerei o texto sugerido o mais cedo possível. Abraço!

  • Camila Carvalho

    O Engraçado é que fiz as mesmas reflexões quando “descobri” tbm através do Instagram e essa frase ” ser negro está na moda, desde que você seja branco ” foi o real tema da festa, e coroa tudo que está acontecendo hoje em dia nas redes sociais e na mídia! Parabéns jô por ser uma Influencer que pensa e age fora da caixinha!

  • Eliane Reis

    Também concordo com sua frase “Ser negro está na moda, desde que você seja branco…”. Atualmente existe todo um discurso de igualdade e em alguns momentos na teoria as discussões chegam a ser exageradas, mas quando partimos para a prática tudo muda de figura. Como vamos, enquanto país, conseguir respeito por nossa cultura e nosso povo se não conseguimos respeitar a cultura alheia?

  • Marina

    Jo, acho bem bacana você trazer a discussão pra cá. Eu escrevi um texto, apaguei, escrevi de novo, mas simplesmente não consegui me expressar a única frase que consigo pensar pra esse assunto e que uma moça já escreveu nos comentários:
    “Ser negro está na moda, desde que você seja branco…”
    Logo eu, mulher e negra ahduahd mas enfim, o que me incomoda no baile além de VARIÁS OUTRAS questões (de não ter modelo negra nas capas etc…) é a apropriação cultural
    assistiam: https://www.youtube.com/watch?v=o73oVBJVM2M
    Muitas utilizaram motivos religiosos e isso não é legal galera, é ofensivo.
    A africa é um continente tão lindo. As paisagens, a fauna, a flora. Pensa que lindo homenagens do tipo?
    Queria poder me explicar melhor mas é um assunto TÃO COMPLICADO, TÃO COMPLEXO.

  • Bom essas reflexões estarem a todo vapor. O que mais me chama a atenção, como já comentaram, de pensarem em uma cultura só, é como o que se remete são as tribos ou partes de uma lenda que não entendem muito bem, buscando distanciar ao máximo a nossa cultura ou alguma referência conhecida para fazerem essa África Pop.
    As pessoas não entendem muito bem essa conversa da apropriação cultural e acaba juntando várias discussões sobre o racismos aproveitando um gatilho, como este do Baile Vogue. O lance é exatamente buscarmos refletir como ilustramos e resignificamos uma cultura que tem centenas de anos, foi significante para a construção da cultura que vivemos e ainda sim não fomos capazes de entender e respeitar.

  • Karina Penha

    Lendo os comentários aqui, comentários do snap e nossa conversa lá, só consigo pensar que continuamos vivendo em um país que prega uma diversidade cultural na mídia, seja ela impressa ou digital, que simplesmente não existe.
    Sou negra e posso dizer que do meio de 2015 pra cá senti que muita coisa do universo “afro-descendente” virou moda seja cabelo, estampas, cor da pele, acessórios. Mas moda passa e sei que provavelmente no fim de 2016 isso nem esteja mais em alta, porém eu vou continuar sendo negra, meu cabelo vai continuar sendo cacheado, continuarei usando turbantes altos e talvez o olhar das pessoas de admiração/beleza/empatia também passe junto com a “moda”.
    E ai como fica?

  • Tatiana Franceschini

    chocada em Cristo com muitas, mas muitas coisas nesse baile – desde a própria escolha do tema por uma revista que, como você e Carla Modices bem lembraram, dá aula de discriminação, até a completa ignorância e reprodução de clichês preconceituosos por tantas ~famosas que têm amplo acesso à informação. esse comentário da Sabrina, a tentativa absurda de turbante da Adriane Galisteu, o cabelo afro ~~~soft da Thaila Ayala, as pinturas no rosto da Rafa Brites… esse povo todo nunca ouviu falar em apropriação cultural? nunca se preocupou em ouvir o que os negros – e só eles, o protagonismo em relação a esse assunto é deles e ponto – têm a dizer sobre?
    nessa sucessão de vergonhas, no fim das contas me pareceu que quem se saiu melhor foi uma blogueira; achei Thassia apropriada e respeitosa. no mais, espero que a atitude das coleguinhas ao menos fomente o debate, porque não ‘tá fácil lidar com essa desinformação, não.

    • Tatiana, gostei do seu comentário, mas discordo um pouco sobre a Thássia. Não vou dar aloka igual a Piovanni, mas a Thassia reforçou um esteriótipo da Cleopatra que sabemos que não é bem assim, principalmente pelo olho claro. Maaaaaas é chatice demais ficar insistindo e procurando detalhes pra criticar, hehe 🙂

      • Tatiana Franceschini

        ai, Ester, verdade! eu demorei p’ra notar a lente e foi equivocada mesmo. acho que as demais me chocaram tanto que ela pareceu adequada. triste isso.

      • Gabriela Peralva Dunham

        No caso da Thassia acho que a inspiração veio de uma personagem, no caso a Cleópatra dos cinemas, feita pela Elizabeth Taylor (que tem olhos azuis)

        • Graziele

          Complementando a Gabriela: … A Thassia, que não sei quem é,atribui qual nacionalidade a Elizabeth Taylor? (Só pra começar).parafraseando Tulipa Ruiz, esse povo “é um equívoco!”, ne?

  • ma

    Jo, assino embaixo de tudo o que voce disse! Só queria acrescentar um ponto que me incomodou MUITO, me fez sentir desrespeitada (e conversando com amigas elas disseram a mesma coisa): a Juliana Paes e a Valesca se fantasiaram de Iemanjá, uma figura religiosa que faz parte da religião de muitas pessoas. Não se brinca com religião, não se brinca com o deus/deuses dos outros. As religiões de matriz africana sempre são super desconsideradas e desrespeitadas pela sociedade em geral… Ninguém se fantasia de Nossa Senhora, sabe? E se alguém o fizer aposto que seria um escandalo. Então por que Iemanjá pode?

    • Tatiana Franceschini

      Ma, eu realmente não tenho opinião formada sobre, mas Juliana é umbandista e filha de Iemanjá; daí a escolha da roupa. Valesca, que eu saiba, é espírita, mas lembro de ter lido em reportagens antigas que seria devota de Iemanjá também. tenho MUITAS dúvidas sobre, não sei se concordo com a postura, mas no caso delas acho que o que houve foi uma tentativa de homenagem mesmo.

      • ma

        Tati, sabia que a Juliana era umbadista, a Valesca não sabia sobre a religião dela… A questão é que, como a Jo disse, se fantasiar de algo é estereotipar, tornar caricato, e não acho que é algo que se deva fazer com uma entidade religiosa, sabe? Não acho que elas tiveram essa intenção, mas abre espaço pras pessoas se sentirem desrespeitadas por acreditarem que é uma figura sagrada.

        • Tatiana Franceschini

          você tem razão, fantasia é caricatura mesmo.
          gente, esse assunto tem muitas nuances! eu poderia passar uma vida lendo sobre e não aprenderia o suficiente.

  • Isabela

    olha, quando soube que o tema seria África achei interessante, pois ao meu ver é um tema que possibilta muitas referências legais, mas logo pensei que a maioria iria escolher fantasias clichês, referências pobres ou iriam pesar a mão. confesso que achei que a maioria iria escolher animal print, me surpreendi pq quase não vi nenhuma. e agora, vendo os looks mais comentados vejo que a real intenção das convidadas desse baile é se destacar mais, usar o look mais “bafônico”, nao interessa qual seja o tema. achei a fantasia de Iemanjá lindíssima, mas nao tinha parado pra pensar sobre a questão religiosa, ao meu ver não achei ofensivo, seria legal saber a opinião de quem é umbandista… agora sobre a Sabrina, realmente achei uma escolha bem equivocada, tanto da fantasia quanto do comentário, a da Galisteu nao entendi bem o que era aquilo, acho que foi pra causar e chamar atenção, e de resto eram vestidos bonitos que devem ter custado uma fortuna, duvido que dê pra curtir um baile de carnaval usando todos aqueles apetrechos, penas e etc

  • Joyce

    Concordo em tudo contigo Jô.
    Vogue só faz reforçar estereótipos. Fico incomodada(pra não dizer indignada) com o reforço diário que fazem sobre riqueza e beleza física, sempre fazendo parecer que ser branca, magra e rica é sinônimo de felicidade e superioridade.
    Aí querer fazer um baile com uma temática tão claramente ignorada ou vista superficialmente por eles foi hipocrisia demais pra mim. Como disseram em outros comentários aqui, desrespeitaram a cultura por colocá-la como uma caricatura, instigando fantasias inspiradas no exotismo africano como se o continente fosse só isso. Como um zoológico, onde você vai, diz: Oh! Que lindo esses bichos selvagens! E depois nem se lembra o que eles representam, sua história, habitat e costumes.

  • cristiane de paula goiatá goia

    Menina, infelizmente hoje não tive tempo de pensar a fundo nisso por alguns motivos – compra de material escolar, kkkkkkkkkkkkkkkkkkk – mas analisando o que escreveu, porque eu assisti a transmissão do GNT toda e fiquei mega inomodada com várias coisas.
    Primeira, não foi Baile Vogue, foi porta do baile.
    Segunda, a tirar pela Mariana Weikert , achei a Astrid puxadora de saco e mal educada – gosto dela mas ontem…lamentável
    Terceiro, me pareceu uma festa para agradar a duas negras mega, híper famosas – Glória Maria e Thaís Araújo, sendo que a Glória tem cabelo liso, entende?
    Se passaram pelas entrevistadas 5 negros foi demaaaaaaais. Perdi a paciência pra moda ontem amada!!!
    Pessoas que estão ali e nem conhecem a cultura, a importância e a força dos Africanos, muita badalação, muito bapho. Sim, tinham roupas incríveis mas fiquei decepcionada! Beijos linda

  • Luccas Forta Vassoler

    Desculpa a intromissão, cai aqui vindo do Facebook.

    Penso o seguinte, a questão do tema da festa ser “Africa”. Não vejo problema nenhum em esteriotipar um país com uma festa. Se fosse Alemanha, estariam todos de suspensório e chapéuzinho, mesmo que isso represente uma pequena região. Somos uma espécie cerimonialista, temos que dar uma “cara” para tudo que fazemos. Não dá para reproduzir a África inteira em uma festa, assim como é impossivel fazer o mesmo com qualquer continente. Sem falar que o objetivo da festa não é educar ninguém.

    Segundo, acho a Sabrina uma caricatura ambulante. Ganha vida sendo gostosa e burra. Qualquer coisa que ela falar pode ser interpretado como idiotice marketeira.

    O fato da festa ter mais brancos do que pretos mostra a triste realidade do nosso pais. Que é bem “misturado” até a página dois.

    Enfim, o texto é bom, mas em cima de um fato que deveria ser levado bem menos a sério. Mesmo porque, nada de lá foi amplamente divulgado como estilo de vida. Basta não seguir os “famosos”

    • Esse texto não tem porquê ser levado menos a sério, Luccas.

      É muito diferente falarmos de representar a Alemanha no Brasil e falarmos de representar a África no Brasil. Por uma razão simples, relativismo histórico. A Alemanha não sofreu nenhuma dominação imposta por brasileiros e seus colonizadores, a África sim. Se um descendente de alemão vai procurar emprego no Brasil é bem visto só por ter características européias, se um negro vai procurar emprego em pleno 2016 ainda tem que lidar com casos de rejeição só por ser “negro demais”.

      O texto da Jojo pode até ir até apenas a página 2 do problema – porque afinal, era madrugada e a moça é filha de inglesa, mesmo sendo bahiana e tendo consciência sobre o assunto, não tem que lidar com ele na pele.

      Tratar o negro como caricatura não é uma novidade do nosso carnaval, nem de outras festas, o grande problema é permitir a continuação disso, ainda hoje.

      Por último, além da sua falta de problematização sobre o tema, você deveria rever seus julgamentos sobre a forma que alguém ganha a vida (que inclusive me soou machista) e sobre o que acompanha.

      • Luccas Forta Vassoler

        Opa Jayne, blz?

        Vejo que algumas coisas saíram um pouco do que eu queria dizer.
        Na verdade, o texto não tem porque não ser levado a sério. É bom e trata de uma temática coerente com os dias de hoje. Garantir direitos a pessoas que não tenham é base para um mundo que eu quero viver no futuro.

        Dito isso, volto para meu ponto. O problema não é o texto, é o no que ele se apoia. Nesse caso, uma festa. E se você reler com atenção, verá que minha crítica quanto a “página dois” é em relação a falsa percepção do brasileiro de que somos um povo que aceita a diversidade, nada haver com o texto da Jojo.

        Não vi onde está escrito no meu texto que está “ok” tratar um negro como caricatura. Reli umas 4 vezes para ter certeza de que não escrevi isso.

        Tive problemas com sua última frase. É em relação ao que eu disse da Sabrina Sato? Quer dizer, condenar um estilo de vida levado por uma celebridade que só reforça a visão do esteriótipo machista da mulher me torna…. Machista? Se foi isso que você quis dizer, desculpe, discordo de você.

        Tente reler meu texto com um pouco mais de simpatia. Não vim aqui endossar o coro de que o mundo está chato demais.

  • Carla Facina
  • Siloan Lima

    Joana, vi sobre o baile e fiquei muito incomodada porque é como a maioria falou: ta na moda ser negro se for branco caracterizado. Estereotipar e se apropriar da cultura, mas representar não acontece. Reconheço o racismo diário nas pequenas coisas e achei esse baile pessimo e infeliz na escolha do seu tema. Fora que a maioria dos convidados eram brancos. Como vc bem disse, um continente misto de culturas. Tem mais a oferecer que só tema ‘carnavalesco’

  • Teresinha Cid Constantinidis

    Oi, Jojo! Achei interessante seu ponto de vista… No entanto, acho que estamos partindo p/ um patrulhamento dos discursos, que me deixa assustada. Acho que estamos nos tornado muito moralistas. Eu acho muito legítimo e sou super favorável em aprofundarmos discussões como vc propôs, mas acho que o exemplo, baile da Vogue, foi infeliz. Carnaval é o tempo das sátiras, se não for assim, não tem carnaval. Claro que tudo tem um limite, mas acho que este limite não foi ultrapassado com a proposta de tema deste baile. Se o tema fosse Brasil, todos iriam de malandro carioca, Carmen Miranda e por aí vai. Pra satirizar, vamos aos estereótipos, é esta a farra, a graça. Não achei ofensivo ao continente, ao negro, à nada. Vamos ser mais leves e pesados quando a situação pede…
    Bjs, amore!!!

  • Teresa

    Oi, Jojo! Achei interessante seu ponto de vista… No entanto, acho que estamos partindo p/ um patrulhamento dos discursos, que me deixa assustada. Acho que estamos nos tornado muito moralistas. Eu acho muito legítimo e sou super favorável em aprofundarmos discussões como vc propôs, mas acho que o exemplo, baile da Vogue, foi infeliz. Carnaval é o tempo das sátiras, se não for assim, não tem carnaval. Claro que tudo tem um limite, mas acho que este limite não foi ultrapassado com a proposta de tema deste baile. Se o tema fosse Brasil, todos iram de malandro carioca, Carmen Miranda e por aí vai. Pra satirizar, vamos aos estereótipos, é esta a farra, a graça. Não achei ofensivo ao continente, ao negro, à nada. Vamos ser mais leves e pesados quando a situação pede…

    Bjs, amore!!!

    • Juliana Ramirez Faria

      Concordo com você. Da mesma forma que quando pensam no Brasil, lá fora, associam ao samba, mulheres peladas e futebol. Eu não me enquadro em nenhum desses estereótipos mas também não sofro por isso. Quando me dizem que o tema é África, eu também pensaria nas estampas, nos turbantes…. Vamos relaxar um pouco, pessoal!

    • Carolina Zampier

      Meninas, entendo o que vcs estão dizendo, mas acho que não se atentaram para o ponto principal: ser negro significa sofrer um preconceito estrutural em praticamente qualquer lugar do mundo. O negro foi escravizado. Sua cultura apagada, seu continente destruído, suas características taxadas como feias. O turbante, o cabelo black, e outras, são sinônimos de resistência e quando brancos usam, principalmente dessa forma (“satirizando”), mais uma vez estamos apagando e silenciando essa cultura.
      Por isso acho que ao compararem ser negro com ser brasileiro, rolou uma falsa simetria.
      E, outra coisa, se negros estão dizendo que não curtiram usarem a cultura deles dessa forma então como brancas devemos ouvir e não dizer “relaxa aí”. 😉

  • Gabriela Peralva Dunham

    Concordo que a África é um continente enorme e rico demais pra resumirem a tão poucas referências (tribal, animal print, mt dourado). Mas essa questão do exagero, do estereótipo acho que é, de certo modo, condizente com o clima de carnaval. Eu sou baiana e sei que se o tema fosse Bahia iriam cair nos estereótipos que há anos vemos na tv, mesmo que a Bahia seja mais que isso. Porém, como branca, reconheço que não tenho propriedade pra julgar se foi um tema realmente ofensivo ou não

  • Daniela Corrêa

    Jô, é sempre um alívio entrar no seu blog e ver um olhar mais crítico da coisa, do que simplesmente “Os melhores looks da noite”, para acrescentar a discussão acho que vale a pena ler esse texto da Stephanie Ribeiro (ativista feminista negra) http://www.brasilpost.com.br/stephanie-ribeiro/baile-vogue-racismo_b_9119688.html?ncid=fcbklnkbrhpmg00000004
    Ele é bem esclarecedor, e eu como branca privilegiada me sinto no dever de compartilhar. E por favor, continue com essas pautas! Bjão

  • Vivian

    Oi Jojo, oi pessoal!
    Depois de tantas contribuições maravilhosas mais radicais ou propondo que podemos estar polemizando demais, afinal de contas, como um dia disse Freud “As vezes um charuto é só um charuto”, no caso aqui às vezes uma fantasia de carnaval é só uma fantasia acredito que temos que sair das redes sociais e blogs e colocar em prática, na vida real on ou off line, atitudes que minem estes comportamentos que não concordamos.

    O que eu faço neste caso? Eu sou consultora de estilo, porém meu foco é na pessoa, ao contrário do que muitos pensam, ser personal stylist é muito sobre o pé e nada sobre o sapato, então eu não compro mais revista de moda, não sigo e nem fomento celebridades que não agregam, pois isso ajuda a fomentar ainda mais o glamour todo da coisa. É trabalho de formiguinha sim, mas sei que vale a pena e que estou fazendo um pedacinho da minha parte.

    Para piorar a coisa toda o baile ainda foi regado a batalha sangrenta e violenta de taxistas contra ubers, choquei mais uma vez! =(

  • Jojo, você não merece palmas, merece um tocantins inteiro por problematizar esse assunto!
    Eu tive a mesma sensação, me deu um nó no estômago vendo aquelas fantasias todas. Fantasias? como assim gente? Já pensou se o tema fosse américa? ou se fosse Brasil e os gringos fossem tudo de tapa sexo, quero ver se a rapaziada ia gostar. É tanta coisa pra falar que eu fico até confusa rsrs

  • Obrigada por trazer esse assunto à tona, eu estava achando que nenhum blog ia falar sobre isso!!!
    Fiquei muito chocada quando soube do tema: “alguém acha legal isso, gente?” e parece que sim, todo mundo acha.
    Tá na moda ser preto, só que branco.
    Vi umas 5 convidadas negras, todo mundo com roupa de oncinha, e a Juliana Paes, que estava de Iemanjá, foi criticada num blog X aí dizendo que “não estava no tema”.
    Absurdo atrás de absurdo.
    Agora me pergunto: quantos negros estavam servindo os convidados brancos nessa festa?
    🙁

  • anna

    Não gosto muito do termo “apropriação cultural” porque acho muito abrangente, não dá pra saber ao certo o que é e o que não é “apropriação”. Reforço o discurso das ouras moças que comentaram aqui: parece que a África está na moda mas ser negro não, visto que a própria revista não põe negras na capa, e, que, a maioria dos convidados era branco. Como também não sou uma pessoa negra, meu discurso acaba aqui pra eu não falar sobre algo que eu não tenho 50% de propriedade pra comentar. Gostei da discussão.

    http://www.apenasobservo.com.br

  • Carla Camila
  • Bárbara da Silva

    Oi, Jojo. Muito obrigada por falar disso, viu. Demorei pra ler, mas me senti muito incluída e muito feliz por ver esse tema aqui, neste blog que eu acompanho há tanto tempo. Esse baile foi uma vergonha, um reforço enorme para a ignorância com que o racismo é tratado aqui no Brasil, simplesmente como se ele não existisse. É muito fashion ser negro, desde que você não seja… é a mensagem que eu leio de um evento desses. Aqui tem um texto incrível que fala exatamente como eu me senti ao ver o meu cabelo crespo, tão execrado desde que me entendo por gente, ser usado como fantasia, como um fetiche, sendo que, quando criança eu me sentia excluída exatamente por causa dos padrões que essas revistas impunham a ele,à minha pele e aos meus traços: http://www.brasilpost.com.br/stephanie-ribeiro/baile-vogue-racismo_b_9119688.html?ncid=fcbklnkbrhpmg00000004 Dê uma lida quando puder. Beijão.

  • Letícia Portugal

    Jojô, comecei a ler seu blog lá quando você deu início. E é excepcional a sua evolução aqui. Não só das matérias e da forma de escrever, mas das críticas, que hoje são muito mais inteligentes, consistentes e contundentes. Você disse tudo o que eu gostaria!
    Também fiquei pasma quando vi a hipocrisia dessa festa. Glamourizar a África? o continente inteiro é esquecido, seu povo morre de fome, doenças, insalubridade… E enquanto isso, há modelos brancas e magras posando pra editoriais na Savana. Há uma elite fazendo graça com a cultura dos povos africanos, mas ser negro e sofrer o que eles sofrem, não tem um que quer né?