H&M, World Recycle Week e a esperteza de mudar de assunto
21 de abril de 2016 POR Jojo COMENTA AQUI!

Eu acho a M.IA uma mulher bem bacana. Além de ser absurdamente talentosa, cool e autêntica, a cantora ainda é super envolvida em causas sociais e ambientais.

Por essas e outras, qual não foi o meu espanto, quando, na semana passada, eu dei de cara com seu novo clipe “Rewear it” em parceria com a H&M. Sim, M.I.A e H&M.

Se parece uma combinação estranha é porque talvez seja mesmo. Ó só um trecho da música:

A letra que fala sobre reutilização e a importância disso para o planeta virou a trilha sonora oficial da World Recycle Week, uma iniciativa da H&M de arrecadação de roupas para reciclagem. A campanha, que começou no dia 18 e vai até o dia 24, convoca todo mundo a levar as peças que não usa mais para a H&M mais próxima. A marca pretende coletar mais de 1000 toneladas de roupas durante essa semana.

Bacana, né? A verdade é que a H&M é, de fato, a única grande rede de fast fashion que vem, consistentemente, levantando a bandeira das causas ambientais. Legal, né?

Mas isso é só um lado da história.

Eu coloquei a minha ingenuidade de lado e resolvi fuçar um pouco mais sobre a iniciativa. Assim que vi a nova campanha, resolvi dar uma googada em “World Recycle Week” e me deparei com diversas críticas. Muita gente fala que o discurso é muito mais marketeiro do que real. O termo “greenwashing” aparece com frequência entre os críticos, que afirmam que a marca está tentando apenas tirar o foco da real extensão do mal que suas práticas de produção provocam no meio ambiente e “se pintando de verde” pra conseguir vender mais.

Coincidentemente (ou não), a World Recycle Week cai EXATAMENTE na mesma semana da iniciativa “Who Made my Clothes” da ONG Fashion Revolution.

Pra quem não conhece, a Fashion Revolution foi criada para lutar por melhores condições de trabalho na indústria da moda. Especialmente nas fábricas em países de terceiro mundo onde pessoas trabalham por salários baixíssimos (muitas vezes considerados mão de obra escrava) e em situações precárias.

Todo o trabalho da ONG se materializa numa campanha global que acontece uma vez ao ano e se chama “Who Made my Clothes”. A ideia é, durante uma semana, incentivar pessoas do mundo todo a postarem fotos mostrando a etiqueta de suas roupas e questionando as marcas com a hashtag #WhoMadeMyClothes (“Quem fez as minhas roupas?”). O objetivo da campanha é justamente pressionar a indústria da moda a melhorar sua cadeia produtiva de forma a conseguir ser mais transparente com o consumidor.

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Todo ano a semana do dia 24 de abril é voltada pra essa campanha. Por que 24 de abril? Porque é o aniversário da tragédia do Rana Plaza em Bangladesh, quando um edifício onde funcionava uma fábrica de roupas caiu, matando 1.130 pessoas e ferindo mais de 2 mil.

Esse ano a campanha do Who Made My Clothes começou nesta Segunda-feira (dia 18) e vai até Domingo (dia 24). EXATAMENTE a mesma semana que a H&M escolheu para falar sobre seu programa de reciclagem de roupas. EXATAMENTE.

Aí você pode argumentar: “Jojo, às vezes eles tão tentando fortalecer o movimento fazendo as duas coisas ao mesmo tempo. ” Eu duvido muito. Primeiro porque o foco das duas iniciativas é bem diferente. A Fash Rev fala sobre pessoas, mão de obra escrava, margens absurdas em cima de corte de custos com fornecedores em países de terceiro mundo. O World Recycle Week da H&M fala sobre reciclagem de peças usadas. Por mais que as duas tenham sua enorme importância, não tratam do mesmo assunto.

Portanto, de todas as semanas disponíveis no ano, por que a H&M resolveu escolher essa para fazer sua campanha? Pra mim parece que a marca está querendo mudar o foco da discussão. Querendo criar uma conversa paralela, pra não ter que falar de um assunto que ela ainda não tem como que responder.

Entrei agora há pouco no site e no perfil da H&M no Instagram e não há nenhuma menção ao Who Made My Clothes. E isso é bem triste e preocupante.

A pauta da sustentabilidade é essencial sim. E não há dúvida de que o movimento da H&M de falar cada vez mais sobre isso não nasceu da nobreza do coração da marca. Isso é resultado direto da pressão que nós, consumidores, viemos fazendo nos últimos anos.

O nosso poder é cada vez maior. A nossa voz vai ser cada vez mais ouvida. Precisamos continuar pressionando. Precisamos não nos contentar com pouco. Reciclar é importante. Mas rever processos de produção (do cultivo do algodão ao tingimento dos tecidos, passando pela não utilização de pele animal, diminuição de dejetos químicos e emissão de CO2) é melhor ainda. Reciclar é importante, mas dar condições de trabalho dignas enquanto se faz isso é melhor ainda.

Então, só pra finalizar: H&M, who made my clothes?

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  • Tauana Moraes Tau

    Adoro os seus post sobre “moda consciente”!!!! Para mim esse é o grande diferencial do seu blog!!! 🙂

  • Por isso esse é o único blog de moda que eu faço questão de seguir. <3

  • Allana C.

    <3 UASZ Parabéns Joana!!!!

  • Giovanna Fialho

    Como sempre ABALANDO.
    Ja faz um tempo que venho revendo sobre minha forma de consumir roupa, nao so por conta do slow fashion e tudo que abrange mas também por que ta caro, a moda “democratica” nao é mais taaaaaaao acessivel assim.

    Nisso eu encontrei (ate falei um pouco no meu blog) uma nova forma de consumir, que é o consumo colaborativo e isso serve pra roupa (oh se serve) e ajuda o planeta Jo.

    Acho lindo colocar em debate coisas tao importantes como essas (:

  • Marina Bezerra

    Nossa, Jo, parabéns pelo post (mais um excelente). Leio sempre seu blog mas tenho uma preguiça mortal de logar pra comentar, então falo pouco, mas preciso registrar aqui que admiro demais sua consciência e a maneira como você sempre levanta essas questões, enriquecendo sempre o debate.

    Amei conhecer o termo greenwashing (que vai dar outra cara pros meus discursos quando for falar mal das empresas que fazem isso), o que não suporto, e até então nao sabia que era uma manobra tão manjada que já dispunha até de alcunha! Na verdade falo aqui de empresas e pessoas (públicas) que fazem aquele papelzinho de “fazer o bem” mais por marketing do que qualquer outra coisa, tentando manipular a opinião publica e muitasvezes conseguindo, o que é lamentável

  • Cristine

    Jojo, bom ver vc tocando neste assunto, pois tive a mesma impressão de ‘greenwashing’ com esta campanha da H&M. No meu caso, presenciei a própria inconsistência de discuro da marca. Após ver a vitrine de uma loja da H&M com a campanha aqui na Alemanha, resolvi entrar. Entre roupas a venda supostamente de uma coloção ‘conscious’ com materiais orgânicos, cartazes falando quantos mil litros de água são gastos para a produção de uma t-shirt, vi também as pessoas saindo do caixas com suas novas comprinhas, prontamente colocadas dentro de SACOLINHAS DE PLÁSTICO com a logo da campanha!! Realmente, não adianta ‘tapar sol com peneira’. A campanha é válida, mas superficial se o sistema todo não muda.

  • Jennifer Hope

    Jojo voce ja ouviu falar fa Patagonia? Eles sao muito honestos sobre a origem dos produtos http://www.adweek.com/news/advertising-branding/ad-day-patagonia-136745

  • Laura Quaresma

    Comento pouco, e quando faço é sempre pra te incentivar a continuar arrasando assim <3

  • Nadine

    Palmas de pé para posts como este! Não apenas agregou informação, como também questionou sem medo uma corporação do porte da H&M. É essa liberdade proporcionada pela internet que efetivamente enriquece os debates, evolui o pensamento, transforma. Por favor, não faça como certos blogs, que iniciaram desta forma desvinculada mas depois “descambaram” em suas filosofias porque se atrelaram a determinadas marcas, por exemplo. Ora, devemos atribuir justamente às “vozes isentas da internet” a mudança (pra melhor) em muitas campanhas internacionais de moda por aí. Quando planeja seu ano seguinte, a H&M tá de olho é em posts como o seu, e não em posts “baba-ovo” com muita foto e pouca legenda. Não é a H&M quem deve pautar a minha forma de vestir, mas o contrário. E o caminho deve ser justamente este. Então obrigada por nos representar tão bem neste aspecto! Um beijo e sucesso em tua jornada. 😉

  • Laili Flórez

    Melhor post dos últimos tempos!

  • Kritz Kaia
  • Andréa Rachid

    Adorei o post. E meu modo de consumir mudou muito depois que vi The True Cost. Já não comprava muita coisa de Zara e afins. Tenho algumas peças da H&M, adquiridas há um tempo atrás. Mas agora, não tenho mais coragem. Me sinto parte do problema ao comprar essas peças.