Alimento pro pensamento: enxergando o lado ruim
20 de junho de 2016 POR Jojo COMENTA AQUI!

SOBRE A MONSTRUOSIDADE DE ORLANDO

Como não falar desse episódio horroroso? Como não sentir o coração em pedaços quando 49 pessoas inocentes perderam suas vidas? Quando 49 famílias perderam seus filhos (ou netos, como essa avô, que foi consolada pela tripulação e passageiros do vôo que a levava para Orlando para encontrar sua família e enterrar seu neto, morto na tragédia). E como não perder um pouco da fé na humanidade ao ler comentários que se seguiram ao massacre, carregados de ódio, preconceito e ignorância?

Orlando

Morre gente demais. Todos os dias. Em todos os países. A cada 28 horas, um homossexual é assassinado no Brasil (vale ver essa matéria do Fantástico). Precisamos evoluir com urgência. Precisamos educar com urgência.

Educar para o amor começa em casa, na escola, na mesa de bar. Vamos ensinar nossos filhos a terem respeito pelo próximo. Vamos chamar atenção dos nossos amigos quando o comentário preconceituoso (mesmo em tom de brincadeira) aparecer.  Precisamos ser ativistas diários pela liberdade de cada um de nós e de cada pessoa ao nosso redor.

SOBRE QUERER DEMAIS E NÃO TER

Leandra

Acabei de ouvir um podcast da Leandra Medine em que ela desabafa sobre a experiência de tentar engravidar através de fertilização in vitro (ela e seu marido Abie Cohen estão tentando ter um filhote) e como esse processo pode ser difícil.

Em 7 minutos, Leandra conta sobre a tristeza profunda que sentiu ao ouvir seu médico comunicá-la, do outro lado da ligação, que o embrião não tinha se fixado em seu útero. Ela conta dos nove dias que antecederam a ligação, os dias seguintes à fertilização, e como ela tentou administrar suas expectativas, tentando se preparar pra qualquer que fosse o resultado.

Mas a verdade é que ninguém se prepara pra não ter o que o coração já deseja tanto. E é aí que Leandra não contém o choro. Aos soluços, ela divide com a gente a realização de que, sim, ela quer isso mais do que quis qualquer outra coisa na vida. E eu chorei aqui no sofá, sentindo um pouquinho da sua dor.

Em meio a timelines fabricadas, feitas só de momentos felizes, fui tocada pela coragem e verdade do depoimento da Leandra.

SOBRE O BIEL

MC Biel é o novo fenômeno teen pop brasileiro. Com letras que falam basicamente sobre pegação e um look obviamente inspirado por Justin Bieber, os vídeos do cantor acumulam milhões de views no YouTube e seus shows arrastam fãs de todo o país.

Biel1

Tudo bem, tudo normal, não fosse uma sucessão de comentários machistas que o ele começou a soltar por aí. A mais recente foi durante uma entrevista, quando Biel resolveu assediar a repórter. Primeiro chamou de “gostosinha”, depois disse que “se pegasse, quebrava ela no meio”. Tá tudo gravado aqui.

A repórter saiu da entrevista e foi direto na delegacia, denunciar o cantor por assédio. Com a notícia da denúncia e a divulgação do áudio da entrevista, a reação veio quase imediata. Mulheres de todos os cantos levantaram suas vozes contra o cantor e esse tipo de desrespeito ao qual, infelizmente, passamos quase que diariamente.

Biel até tentou se desculpar. Fez um vídeo no YouTube com cara de choro e disse que foi tudo um mal entendido e que ele sentia muito se alguém tinha se sentido ofendida. E eu vi o vídeo e fiquei pensando: esse cara ainda não entendeu. Pedir desculpa “pra quem se sentiu ofendido” tá errado porque parece que o problema é de quem se sentiu ofendido e não de quem proferiu a ofensa. O que eu ia ter gostado de ouvir? Um simples: “Gente, foi mal. Eu errei. Não vou fazer mais.”

Biel

O lado bom? Biel saiu perdendo. Perdeu o convite para carregar a tocha olímpica, perdeu a participação em programas da Globo, perdeu um contrato publicitário com a Coca Cola. Agora só falta aprender a não fazer de novo, né?

SOBRE JORNALISMO QUE AMENIZA TRAGÉDIAS

Há pouco mais de uma semana, me deparei com esta manchete:

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(matéria toda aqui)

Recentemente, eu postei aqui no blog um guia do jornalismo feminista, produzido pelo pessoal do Think Olga. O manual tinha como objetivo evitar que jornalistas tratassem crimes de violência contra a mulher de forma a minimizar os casos.

E eis que essa manchete é o mais puro exemplo do que não se deve fazer. Ao chamar o período pós casamento forçado entre uma menina de oito anos e um homem de 40 de “lua de mel” a matéria romantiza um crime. Precisamos dar os nomes corretos aos bois. A menina morreu após ser estuprada, depois de ser obrigada a casar com homem de 40 anos. Assim fica claro o crime, fica clara a crueldade, fica claro que nada dessa história tem qualquer semelhança com uma lua de mel.

 

Eu sei, o post de hoje tem tom de tristeza. Mas a vida é assim, mesmo. Tem coisas boas e tem coisas ruins acontecendo em todos os lugares, o tempo todo. É preciso enxergar os dois lados. Só assim a gente consegue dar valor pro lado bom e trabalhar todos os dias pra que ele prevaleça.

Boa semana, pessoal.

 

  • Grazi CMartins

    Joana, obrigada pelo alimento do pensamento, fui lá e ouvi o podcast da Leandra, e me identifiquei total, já passei por isso há 5 anos atrás, e é bem ruim mesmo, fazer a FIV e não nidar (embrião não ficar implantado); a dor é imensa, é um luto igualzinho à um aborto espontâneo; meu conselho que daria para ela, pois ela pergunta o que fazer agora? sofra, se permita sofrer, pois só vivendo intensamente esse sofrimento ela vai se curar, e depois vai passar, é da vida, é do jogo, e a vida é MA-RA, ser feliz é a única saída, bjbjbjbj

  • Vanessa

    Post maravilhoso Jojo.

  • Ana

    O post de hoje é realmete muito triste, mas é bom mesmo sair um pouco da “felicidade fabricada” que todo mundo quer mostrar e refletirmoa sobre o que ainda precisamos fazer para tornar esse mundo um pouco menos triste…

  • Ana

    Jojo, uma coisa que me incomodou particularmente foi que abri essa notícia da criança estuprada e fiquei procurando no site d’o globo um espaço de contato com eles, um ‘fale conosco’ ou ‘reporte erro nessa reportagem’, e não achei nada do tipo para quem não é assinante. Não sei se é pq estou acessando por um tablet e se no computador, mas queria saber se mais alguém tentou…
    Acho que uma ação importante quando vemos notícias assim é reclamar para os editores para mostrar que os leitores ficam incomodados.
    Se alguém tiver alguma dica, será bem vinda!

  • Tatiana Franceschini

    Jojo, acabei de ler que a moça assediada por Biel (uma das moças, na verdade – após a denúncia da primeira repórter, outra já se manifestou) foi demitida! fiquei ainda mais indignada.
    claro que o portal alegou qualquer coisa, mas né, só não enxerga a punição à vítima quem não quer. temos um longo caminho pela frente…

    • Ana

      Gente, não creio nisso! 🙁

  • Maru, Mechi y Sol

    Jo, ótimo alimento pro pensamento. Triste mas é o que tem para hoje.
    Adoro seu blog por isso. Sensibilidade purinha!