Londres bane campanhas ofensivas às mulheres
29 de junho de 2016 POR Jojo COMENTA AQUI!

Você tá lá no metrô, indo trabalhar. Ainda nem acordou direito, ainda tá passando um corretivo pra dar uma disfarçada naquela olheira de urso panda de quem ficou vendo Netflix até tarde ontem.

giphy-3

Tipo isso.

Eis que você olha pro lado e dá de cara com uma mulher de biquini. A criatura não só está semi-pelada e sem olheira alguma, como ainda é magra, peituda, possui cabelo naturalmente liso AND loiro e te olha com olhar de gata selvagem.

Não, ela não está fisicamente ao seu lado, mas, sim, estampada numa propaganda. Como se não bastasse ter de olhar pra tudo isso às 7:30 da matina, a loirona ainda te confronta: “Seu ‘corpo de praia’ está pronto?”

Siiiiiiiiiiim, às 7:30 da matina, quando você tá indo garantir o seu ganha pão e tá tendo que tomar um Toddynho porque, afinal das contas, quem tem tempo de fazer suco verde.

Não, isso não é o pesadelo que eu tive ontem. Isso aconteceu. Ok, a parte do Toddynho é imaginação minha (saudaaade de Toddynho…). Mas a propaganda rolou mesmo e gerou o maior rebuliço no ano passado lá em Londres. Ó só a foto:

Body-shaming

Sim, a marca Protein World acordou um dia e resolveu fazer todo mundo se sentir mal consigo mesmo.

A reação à mensagem super opressora veio rapidamente. Foram mais de 360 reclamações e uma petição no Change.org com mais de 70 mil assinaturas. Teve gente tão incomodada que colou até bilhetinho por cima:

Body-shaming1

No bilhete está escrito:

1. Seu corpo está ótimo do jeito que está.

2. Seja como ele for, seu corpo não é uma commodity.

#TodoCorpoEstáPronto

#SexismoDeTodoDia

Preciso dizer mais? Mensagens como essa são jogadas na nossa cara diariamente, seja pelas propagandas e suas modelos magérrimas e branquinhas, seja pela mídia como um todo (de Hollywood à TV Globo). São elas que fazem a gente olhar pra si com olhos mais críticos, mais impiedosos, procurando falhas ao invés de qualidades.

Dessa vez, pelo menos, providências foram tomadas pra tentar reverter esse cenário. Na semana passada, o prefeito de Londres, Sadig Khan baniu de todo o sistema de transporte municipal propagandas que contenham tom ofensivo, especialmente no quesito padrões de beleza diversificados.

Ó o depoimento dele que coisa mais linda e lúcida:

“Ninguém deveria se sentir pressionado a se enquadra em expectativas irreais sobre seus corpos e eu quero deixar isso bem claro para a indústria da propaganda.”

Só tenho uma coisa pra dizer pro Sr Khan:

giphy

 

A verdade é que, infelizmente esse tipo de discurso ofensivo ainda é uma realidade muito presente na comunicação, especialmente de marcas de moda.

Exemplo disso é que, ano passado, o então diretor da Herve Leger, Patrick Couderc disse em entrevista ao Daily Mail que o icônico vestido bandage da marca não era feito para mulheres “voluptuosas”. Na mesma entrevista, o executivo ainda insultou a comunidade LGBT (afirmando que lésbicas não iam curtir a marca por se identificarem com um estilo mais “macho”) e mulheres mais velhas (ao dizer que o busto está cerca de duas polegadas abaixo do que deveria estar quando você tem 55 anos).

HerveLeger

Pouco antes, a queridinha Lululemon (décima marca de vestuário mais valiosa do mundo) também ganhou os holofotes por conta das declarações de Chip Wilson, fundador da marca. Em Novembro de 2013, o executivo deu uma entrevista à Bloomberg na qual declara sua opinião sobre quem não deveria usar os produtos da marca.

“Francamente, existem corpos de mulheres que não funcionam com nossas calças. Essa coisa das coxas esfregarem umas nas outras, durante um período prolongado de tempo.”

Wilson se referia a reclamações das consumidoras de que as calças não duravam, culpando seus corpos pelo desgaste do material.

Lululemon

 

A resposta das consumidoras veio logo em seguida, rechaçando o executivo por culpar suas consumidoras por uma falha de produto e ainda as fazendo se sentir mal com seus próprios corpos.

Depois do escândalo, a Lululemon tentou se desculpar dizendo que a declaração de Wilson não refletia as crenças da empresa (o que, convenhamos, é bem estranho já que foi ele que fundou o troço todo). Mas logo em seguida uma nova matéria novamente veio reforçar o DNA preconceituoso da marca. Em entrevista ao Huffinton Post, uma ex funcionária da marca afirmou que isso também era uma realidade nas lojas da marca, onde vendedoras eram instruídas a esconder tamanhos maiores das araras e prateleiras e dar preferência a tamanhos menores, mais “adequados” ao estilo Lululemon.

Ainda em 2013, Karl Lagerfeld, na época diretor criativo da Chanel, afirmou que “ninguém queria ver mulheres com curvas na passarela.

Esses exemplos são importantes pra gente lembrar que ainda tem muita marca babaca por aí sim. E que medidas como as tomadas em Londres são importantíssimas para evitar distúrbios de auto-imagem tão comuns e tão duros de lidar.

Incentivar um modo de vida mais saudável não tem nada a ver com fazer com que meninas e mulheres odeiem seus corpos. Pelo contrário.

Só pra finalizar, deixo esse vídeo aqui pra lembrar que, pra ir à praia, só é preciso:

1. ter um corpo

2. ir à praia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  • Maru, Mechi y Sol

    Noticia maravilhosa, post MARAVILHOSO!
    Seu blog é muito amor.

  • R. S

    Que diferença entre o seu texto e outro divulgado em um blog conhecido. Nossa, alívio!
    Lá basicamente disseram que as mulheres tem que crescer e parar de se comparar/preocupar com as outras, que compra o produto quem quer e que é imaturidade se ofender por causa da propaganda. Ahhh, ia esquecendo…disseram que mais machista que a própria propaganda são as mulheres que não sabem lidar com o corpo magro, sarado e perfeito das modelos e exigem a retirada dessas campanhas. Ou seja, disseram em outras palavras que esse tipo de propaganda não influencia em nada a formação de ideal de imagem e que quem reclama disso é mimizento.
    Parabéns pela abordagem e por realmente entender as medidas que foram tomadas, ao invés de se sentir ameaçada (como dona do outro blog…modelo, magra, branca, rica e sua equipe de redatoras “feministas e cheias de ideais”, mas que baixam a cabeça quando a chefe manda).
    Acho sinceramente que se a pessoa não sente o mínimo de empatia pela dor alheia e não entende os argumentos dos outros para tentar estabelecer uma discussão racional, deveria ficar quieta.

    • Débora Azevedo

      Eu ia escrever sobre o mesmo texto (Julia Petit). Também achei uma barbárie o que ela escreveu. Obrigada, colega. 🙂

      • R. S

        Parei de ler o blog dela nesse dia.

  • Mim Plech

    Que orgulho da minha cidade favorita <3
    Não temos que ter o corpo de ninguém, apenas os nossos.
    Do jeito que quisermos!

    http://www.mimiquices.com/

  • Muita boa esse texto Jojo! Ainda temos muito chão pela frente, mas é um passo na direção certa! 🙂

    http://estiloaomeuredor.com/