Atos de bondade aleatórios
20 de Abril de 2015 POR Jojo COMENTA AQUI!
Random acts of kindness é uma expressão em inglês que, traduzindo de forma bem literal, significa “atos de bondade aleatórios”.
Eu entrei em contato com ela pela primeira vez ainda trabalhando em agências de publicidade. Na época, os tais atos de bondade aleatórios tinham se tornado febre entre marcas que queriam se aproximar dos consumidores. Sabe aqueles vídeos do YouTube em que uma marca vai lá e surpreende o cara e dá um presente pra ele? Tipo isso aqui. Ou isso.
Os vídeos eram fofos e viralizavam rapidinho. Consumidores passavam a achar a marca mais bacana porque, né? Dando presente fofo por aí, quem não fica feliz? E a marca ficava feliz também porque, né? Ganhou Ibope e tal.
Mas a verdade é que a expressão que virou marketeira, nasceu entre as pessoas, de um jeito muito mais bonito e verdadeiro. Segundo o Wikipedia, ela nasceu aqui na California (mais precisamente, aqui do lado de São Francisco, em Sausalito), quando uma moça (a Anne Herbert) escreveu, numa toalha de mesa de um restaurante, a seguinte frase: “Pratique atos de bondade aleatórios e atos de beleza sem sentido” (no original: “Practice random acts of kindness and senseless acts of beauty“).
A frase ganhou o mundo e, ainda hoje, inspira pessoas a praticarem o bem “sem olharem a quem” e serem generosas, mesmo com desconhecidos. Deixar um café pago pra pessoa que está atrás de você na fila. Deixar uma mensagem positiva dentro de um livro que se devolve para a biblioteca. Elogiar a roupa de alguém que você não conhece.
Esse sábado, alguém fez isso com a gente.
O dia tava bonito aqui em São Francisco. Sol e calor gostoso desses que convidam a gente a sair de casa pra viver a vida. Catamos a bicicleta e fomos explorar a cidade meio sem rumo.
Depois de quase uma hora passeando, acabamos na frente do estádio dos Giants, o time de baseball aqui de São Francisco. A gente não entende nada de baseball, mas, de cara, dá pra entender a loucura que o pessoal aqui tem pelo time. Filas de pessoas vestidas inteirinhas de laranja davam a volta no estádio. O Giants é o único time de baseball de São Francisco, então não existe torcida contra. Todo mundo que gosta de baseball em SF veste laranja em dia de jogo. E, se isso não fosse suficiente pra contagiar dois brasileiros que não entendem nada do esporte, o time ainda é o maior campeão atual dos EUA, tendo arrematado três títulos nacionais nos últimos cinco anos.
Trancamos as bikes do lado do estádio e fomos dar uma olhada mais de perto naquela festa toda. Ainda faltavam 4 horas pro jogo começar. Portões todos fechados. Mas o povo não parava de chegar. Famílias inteiras, com crianças pequenas vestidas com gorros laranjas. Gente comendo pizza nas filas, tirando foto, andando pra cima e pra baixo.
Passeando ao redor do estádio e vendo toda a movimentação não tinha como não soltar um:
“A gente tem que se programar pra vir outro dia, né?”
“Tem! Quero vir! Legal demais isso!”
Eis que, no meio do nosso papo em português, a gente ouve:
“Brasileiros?”
Um gringo, seus 40 e poucos anos. Do lado dele, uma ruivinha, dançava pra cima e pra baixo, obviamente animada com a festa toda.
Engatamos no papo. O gringo era ali da California mesmo, mas apaixonado pelo Brasil. Namorou lá, surfou lá, fez amigos lá. E, quando ouviu o nosso português, simpatizou. Contou pra gente que tinha 4 ingressos, eram pra ser dele, da mulher e dos dois filhos. Mas a mulher e o filho pequeno não puderam vir. E ele tinha dois sobrando.
“Querem entrar com a gente?”
A gente tinha tido meio minuto de conversa. Ato de bondade aleatório.
Entramos no estádio com eles. Mas não foi só pra ver o jogo. Eles tinham se cadastrado pra serem voluntários numa cerimônia de entrega de prêmios aos jogadores que aconteceria antes do jogo em si. Então, entramos pelo gramado. Com o estádio lotado. Todos os jogadores do Giants em campo recebendo seus prêmios, gente da velha guarda do time sendo homenageada, hino dos EUA tocando e a gente no meio do gramado, ajudando a abrir a bandeira.
Foi uma das experiências mais surreais da minha vida, simplesmente porque foi tão inesperada, tão surpreendente.
Terminada a cerimônia, fomos pra arquibancada e vimos o jogo enquanto com a ruivinha dançarina de 10 anos de idade me explicava todas as regras.
Os Giants ganharam o jogo. A gente ganhou amigos e um dia desses que não dá pra esquecer.
Voltei pra casa pensando nas coisas que fazem a gente feliz. Nos momentos em que fui mais feliz na vida. Fecha os olhos e pensa também. Vê se, em boa parte dessas memórias, você não foi feliz porque fez alguém feliz. Você nem ganhou nada com isso, mas ver a felicidade de alguém e ter provocado esse sentimento é uma coisa tão doida, tão poderosa. Lembra de como dar um presente que alguém ama é até melhor do que receber um? E dar um sorriso e receber ele de volta? E melhorar o dia de alguém que tá pra baixo?
O mundo precisa disso. De mais amor, generosidade e atos de bondade aleatórios. Mas, fora o mundo, nós precisamos disso. Não custa muito ser feliz. Ainda mais quando se é feliz fazendo mais alguém feliz de carona.