Os absurdos de Cannes
20 de Maio de 2015 POR Jojo COMENTA AQUI!
Essa semana tá rolando Festival de Cannes. Eu sei porque, desde que ele começou, pra onde quer que eu olhe, dou de cara com uma lista de “Melhores looks do tapete vermelho”. Fotos e mais fotos de atrizes super produzidas, trazendo para vida looks recém desfilados nas passarelas.Eu não costumo postar listas de “best dressed”.  Acho que fiz uma vez, láaaaa no início do blog, quando rolou o casamento entre o Príncipe William e a Princesa Kate. Mas a verdade é que não vejo muita utilidade em um post desses. Ah! A fulana foi de Armani Privé, jóias Chopard, sapatos Louboutin, perfeito pro dia a dia. Lógico que gosto de dar uma olhadinha, mas fico com uma preguiça enorme de postar essas coisas.

Mas parece que não sou só eu que ando de saco cheio de ficar me deparando com matérias e mais matérias sobre looks de tapete vermelho.

Se você já assistiu a alguma cerimônia pré-Oscar, com certeza já presenciou a diferença de tratamento dado a homens e mulheres que cruzam o tapete.

Pergunta de um repórter para um ator:

– Olá, fulano, que dia maravilhoso para se estar aqui, não é mesmo? Como está se sentindo em ter sido nominado como melhor ator pelo seu filme X?

Pergunta de um repórter para uma atriz:

– Olá, fulana, você está linda hoje! Me conte tudo sobre esse seu look maravilhoso! Quem te vestiu?

Pois é, num evento em que se celebra as conquistas de homens e mulheres (em igual medida) por performances que muitas vezes contam histórias de superação de preconceitos, o tapete vermelho ainda é lugar de objetificação das mulheres e de diminuição de suas qualidades. O foco na aparência em detrimento de todos os outros atributos e talentos deveria ter parado lá pela década de 70, mas, por algum motivo, ainda continuamos perguntando as mesmas coisas para Cate Blanchett que perguntávamos para Elizabeth Taylor.

O assunto é tão sério e tão representativo do que nós mulheres ainda somos submetidas nos dias de hoje que, no Oscar desse ano, o Representation Project lançou uma campanha em parceria com o Twitter chamada “Ask her more”. A ideia era incentivar as pessoas a twittarem perguntas inteligentes para inspirar os jornalistas sem criatividade que só ficavam na ladainha do “Qual o seu look? Quem te vestiu? De quem são suas jóias?”.

Bem, isso tudo foi só uma recapitulada pra quem ainda não tinha ouvido falar do assunto.

A verdade é que, mesmo depois de todo o barulho sobre sexismo no tapete vermelho, Cannes chega e a gente tem que se deparar com situações ainda mais surreais.

Primeiro foi o alvoroço causado pela coletiva de imprensa do filme Carol, em que Cate Blanchett foi perguntada se ela já tinha tido relacionamentos com mulheres. O filme se passa na década de 50 e retrata o romance homossexual entre duas mulheres interpretadas por Cate e Rooney Mara (The Girl with the Dragon Tattoo). À pergunta, Kate respondeu: “Sim, já tive vários relacionamentos com mulheres. Mas, se você quis dizer sexuais, não, não tive nenhum”.

Bem, resta dizer que só a primeira parte da resposta chegou às chamadas de matérias em centenas de publicações pela internet afora. A ponto de Cate se sentir obrigada a fazer um novo pronunciamento.

“Em 2015, a questão deveria ser: ‘quem se importa?’ Me chame de antiquada, mas eu achava que o trabalho de um ator não era representar seu próprio, pequeno e monótono micro universo, mas sim de expandir o seu senso de universo e criar uma conexão psicológica com a experiência de um personagem, para que você possa melhor representá-lo. Para que você possa apresentar um outro mundo ao seu público.”

E completa:

“Eu acho que o que acontece hoje é que, se você é homossexual, você é obrigado a falar sobre isso constantemente, isso vira um assunto que vem antes mesmo do seu trabalho ou de qualquer outro aspecto da sua personalidade. Estamos vivendo um tempo muito conservador. Se você não concorda, você está sendo ingênuo.”

Dito isso, o Festival de Cannes resolveu provar que Cate tem razão quanto aos tempos conservadores em que vivemos. Desde o início da semana, não páram de surgir relatos no Twitter de mulheres barradas na porta do Festival simplesmente porque estavam usando sapatos baixos.

Sim, minha gente. No screening de um filme que fala sobre um amor proibido entre duas mulheres na década de 50, teve mulher que não pôde entrar em 2015 porque estava de sapatilha.

A coisa chegou ao cúmulo de barrarem Valeria Richter, produtora de cinema que estava com uma sapatilha baixa simplesmente porque tinha parte do pé amputado e não consegue manter o equilíbrio usando sapatos de salto alto. Fazer uma mulher ter que argumentar sobre sua necessidade física de usar sapatos baixos em 2015 é realmente coisa de outro planeta.

A verdade é que isso é só uma ponta do iceberg de tudo o que ainda precisamos conquistar como mulheres e como civilização. Tudo começa com a consciência, com perguntas mais inteligentes que geram respostas mais inteligentes e consumo de conteúdo mais inteligente.

Afinal de contas, o vestido pode ser lindo. Mas quem veste é sempre muito mais interessante.

 

Tags: