Sobre envelhecer
15 de junho de 2015 POR Jojo COMENTA AQUI!

Desde que fiz o post sobre os meus cabelos brancos que tenho pensado muito na relação que a nossa geração está desenvolvendo com a velhice. E, confesso, essa glamurização da juventude, da geração Y, X, Z, me cansa demais.Vejo, cada vez mais, mulheres com medo de envelhecer. Com vergonha de dizer a idade. Se desesperando, gastando tubos pra tentar fazer o tempo parar.

E não tem como não pensar em quão inútil tudo isso é. No desperdício de uma luta contra o tempo na qual simplesmente não há possibilidade de vitória.

Uma das minhas leitoras (e é por isso que eu amo vocês) me mandou um email indicando essa entrevista com a Frances McDormand (atriz de 57 anos, atuou em filmes como Fargo e Quase Famosos) que fala justamente sobre isso. Dá uma olhada.

Como a entrevista tá toda em inglês e eu não achei nenhuma versão com legenda, resolvi traduzir porque acho que vale muito a pena mesmo.

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– Você está casada há 30 anos, certo?

– Certo, 32 anos.

– E você parece ter um casamento fantástico. Você já mencionou que seu marido, Joel, olha pra você e gosta do que vê.

– Sim, nós temos muitas conversas sobre envelhecer e como é um processo difícil em nossa cultura e eu faço discursos sobre o assunto e eu sou um tanto zelosa sobre o assunto e ele tenta sempre me lembrar que nem todo mundo envelhece do mesmo jeito e que eu tive muita sorte pelo fato de estar bem com a minha aparência e com a maneira como estou envelhecendo.

– Num recente perfil seu para o New York Times você disse: “Devemos ter o alerta vermelho ligado com relação a como nos percebemos como espécie. Não existe desejo em se tornar um adulto. A idade adulta não é uma meta, não é visto como uma dádiva. Alguma coisa aconteceu culturalmente. Vivemos uma época em que ninguém deve passar dos 45 anos, seja na moda, na cosmética ou nas atitudes. Todos se vestem como adolescente, todos pintam o cabelo, todos estão preocupadas em ter uma cara jovem.” 

– Esse é um fenômeno novo? Ou uma situação que se agravou? E, se sim, por que?

– Isso é uma das coisas sobre as quais estou falando. Eu me pergunto como era a vida antes. Eu me sinto nostálgica de uma época que nem vivi. Essa época anterior que não nos criticávamos tanto e não nos cobrávamos tanto de parecer ter uma certa idade.

– É difícil envelhecer hoje…

– Sim, é. E eu acho que nós (atores) temos muita responsabilidade porque estamos na mídia e conseguimos alcançar muita gente. Eu não faço publicidade e nem lido com a imprensa há anos. Tomei essa decisão de forma muito consciente simplesmente porque eu estava passando a não gostar do meu trabalho, de atuar, por conta da promoção que esse trabalho envolve, não só a promoção dos filmes que eu fazia, mas também a promoção de mim mesma e eu não estava interessada nessa parte. Também porque isso tudo estava chegando muito próximo da minha vida pessoal e eu não conseguia mais viver da maneira como eu queria viver. Até que uma amiga disse pra mim: “As mulheres precisam de você. Mulheres jovens precisam da sua imagem, da sua voz e não aparecer é uma atitude muito egoísta da sua parte.” E isso foi há 5 anos, ou seja, eu demorei 5 anos pra realmente ouvir o que ela estava dizendo, mas hoje eu acredito muito nisso.

– Eu acho fantástico que você abraçou a sua idade e eu me pergunto se existe aquele momento em que você se vê na tela e pensa: Ai!

– Oh yeah! Não é como seu eu não me olhasse no espelho e não ficasse me analisando e reparando nas ruguinhas. Mas, ao mesmo tempo, tá vendo essa aqui? (aponta pra marca de expressão entre o nariz e a boca) Essa aqui é o meu filho. São vinte anos de sorrir e falar: Oi!!!!! ou Uau!!!! ou  Ai meu Deus!!! Entende? Esse é o mapa!

– Então quando você vê essas pessoas que estão refazendo seus rostos com cirurgia plástica, você fica chateada com isso, certo?

– Sim!!!! Porque isso leva embora. É como se eu falasse: Isso eu vou cortar, dez, quinze anos, vou apagar da minha vida. 

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Eu sei que é difícil se olhar no espelho e ver o tempo passar e sei o quanto às vezes a sensação é essa mesmo: de perda. De perda dessa batalha contra envelhecer. E sei que estou apenas no início da minha trajetória de auto-conhecimento sobre esse processo.

Mas, de um modo geral, sinto falta de sermos mais generosas com nós mesmas. E gostaria de envelhecer numa sociedade que me ajuda a me sentir melhor durante esse processo que já é duro por si só.

Então, só queria começar a semana pedindo pra cada uma de vocês se olhar no espelho com bondade e generosidade consigo mesmas. Olhe durante bastante tempo se necessário. Com cuidado e calma. Faça caretas, sorria, feche e arregale os olhos. E se permita sorrir lembrando de cada momento que possa ter causado cada uma dessas marcas (ou cada cabelo branco :-).

Boa semana, gente!