Roupateca: um novo jeito de consumir moda
1 de dezembro de 2015 POR Jojo COMENTA AQUI!

Imagine um clube onde você paga uma mensalidade para ser membro. Mas, ao invés de ter direito a usar a piscina, você tem direito a pegar uma roupa emprestada. Essa é a ideia da House of Bubbles, inaugurada no início de novembro em São Paulo.

O serviço vai funcionar com uma assinatura mensal: R$100 dá direito ao “empréstimo” de uma peça por mês, R$200 dá direito a três peças por mês e R$300 dá direito a seis peças, entre roupas, acessórios, bolsas e sapatos. Cada retirada tem validade de 10 dias e, ao final, o cliente pode renovar os itens que já estão com ele ou retirar novos.

Eu confesso, logo que ouvi falar da iniciativa, não vi muita utilidade pro serviço. A verdade é que eu curto mesmo a coisa de dar vida nova à roupa velha. Lógico que, vira e mexe, a gente gosta de comprar coisas novas, mas a coisa mais legal que tem é conseguir pensar em um monte de jeitos diferentes de usá-las. Por essas e outras, me pareceu meio bobo pagar R$100 reais por mês pra pegar uma pecinha e só ficar com ela 10 dias.

Com essas dúvidas em mente, resolvi entender direitinho do que a história toda se tratava. Pra isso, conversei por email com a Dani Ribeiro e a Nathalia Roberto, idealizadoras do Bazar Entre Nós e curadoras da House of Bubbles.

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Jojo: Vamos começar pelo começo: de onde surgiu a ideia de uma roupateca?

Dani: A ideia surgiu depois de eu e a Nathalia passarmos um tempo estudando e pesquisando sobre economia compartilhada. Temos percebido as pessoas mais e mais interessadas e se questionando sobre o que, de quem e por que consomem.

Ao mesmo tempo, com uma crise acontecendo, a oportunidade e vontade de oferecer pras pessoas um serviço que entregasse um jeito novo de praticar o consumo cresceu e chegamos no formato da biblioteca de roupas (o Wolf, nosso parceiro no projeto e dono da House of Bubbles, espaço onde fica a Roupateca, já pratica esse conceito no seu business)

Quando viemos apresentar a ideia pro Wolf, porque queríamos muito que a biblioteca acontecesse num lugar que já estivesse pronto e também alinhado com o conceito, ele já tinha tido a mesma ideia. Foi uma sincronicidade muito feliz, então juntamos forças e expertise diferentes pra botar o projeto de pé.

Trata-se de um serviço que possibilita que as pessoas vivam a experiência do acesso. Queremos que quem assina a Roupateca entenda que pode ser muito mais inteligente e sustentável ter acesso a um acervo com curadoria incrível do que pensar em comprar tudo o que se tem vontade de usar.

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Jojo: Como é feita a curadoria de peças do acervo e com qual periodicidade ela é renovada?

Dani: O acervo da Roupateca é construído de forma colaborativa. Qualquer pessoa pode ser “fornecedora” desde que suas peças atendam os pré-requisitos (peças em perfeito estado, de boa qualidade e duráveis – evitamos o fast fashion). Estamos construindo um acervo muito democrático. Tem de tudo, de camiseta a roupa de festa, com uma grande variedade de tamanhos. Um guarda-roupa que atende a todas as tribos e demandas da vida das pessoas.

Nath: A curadoria é bem cuidadosa e criteriosa. Todas as peças selecionadas são impecáveis. Não só marcas são levadas em consideração. Caimento, acabamento e atemporalidade também são bem importantes pra gente. O acervo é renovado todo dia na verdade, porque recebemos coisas novas o tempo todo. A ideia é de tempos em tempos realizar um encontro entre os assinantes e público em geral pra que possam comprar as peças por um preço justo. Assim a gente consegue dar uma renovada na cara do acervo também.

Jojo: Qual público vocês esperam atingir com a House of Bubbles?

Dani: A gente imagina atingir toda e qualquer pessoa que esteja mais conectada ou interessada em se questionar sobre a maneira que consome moda. Sabemos que alguns assinarão por pura curiosidade e continuarão comprando como antes, mas o que queremos é oferecer, pra todas essas pessoas com níveis diferentes de consciência de consumo, a reflexão (através da experiência) de que é possível ser muito mais inteligente e sustentável ter acesso a algumas coisas do que ter posse sobre tudo o que se deseja usar.

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Jojo: No momento em que refletimos sobre novos padrões de consumo de moda, qual o papel de um guarda-roupa compartilhado?

Nath: Solução para todas as questões que envolvem essas reflexões de consumo de moda. Pensa só: se já existe roupa linda, nova e sem uso no mundo suficiente pra vestir muita gene, por que não transformar isso em serviço? Pra que então todo mundo perceba que a gente não precisa de muito e que, de fato, não precisa TER todas as roupas que deseja usar, não precisa COMPRAR tudo o que acha bonito. Em época de crise e escassez de recursos naturais junto com uma cadeira produtiva massacrante que é a da moda, não faz mais sentido que, como consumidores, a gente não se sinta responsável por nossas escolhas e suas consequências. Fora que é muito legal pensar que, através de um serviço de assinatura, é possível ter um guarda-roupa incrível a seu dispor sempre que quiser algo “novo”.

Jojo: O uso de peças por um determinado tempo pode ser vista como uma maneira de incentivar uma relação mais efêmera com a moda?

Dani: A Roupateca com certeza possibilitará que as pessoas experimentem e se aventurem mais por caminhos que talvez não se arriscassem caso tivessem que comprar as peças. Imagino que se sentirão mais livres e menos preocupadas em ousar e explorar noas possibilidades com o vestir.

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Confesso, depois do nosso papo, reavaliei a minha desconfiança inicial. A Roupateca pode ser encarada como um jeito de experimentar coisas novas sem o risco de gerar mais lixo pro mundo. E até de resolver facilmente essas necessidades pontuais(tipo uma festa chique, um jantar formal, uma reunião importante, sei lá) que acabam obrigando a gente a comprar alguma coisa que a gente não vai usar muito depois.

E talvez seja possível que a iniciativa acabe minimizando o consumo a partir do momento que a gente consegue saciar aquela vontade de uma peça nova sem ter que comprar alguma coisa todos os meses e acabar com um monte de peça encalhada no armário.

Fiquei pensando em como eu usaria o serviço. Acho que talvez o ideal seja ter um armário mais atemporal e versátil, que dure muito, e pegar emprestado as peças que vão dar esse ar mais contemporâneo, atual, ousado.

Que que vocês acham? Vale?

 

 

 

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