Pop Africa?
29 de Janeiro de 2016 POR Jojo COMENTA AQUI!

Ontem foi Baile da Vogue. Eu só soube porque resolvi fazer uma pizza de couve flor no meio da noite e, enquanto ela assava, eu fiquei matando tempo vendo a vida do povo no Instagram. Em pé na cozinha, com a minha calça de moleton mais gostosa (leia-se: velha) e meias igualmente gostosas (leia-se furadas), abri o aplicativo e dei de cara com todas as celebridades e blogueiras mais badaladas do Brasil curtindo todas no tal baile.

A princípio fiquei com aquela sensação de: putz, que legal que deve ser essa festa, né? Monte de gente legal cantando, celebridades desfilando fantasias super elaboradas, bebida sobrando, picolé de graça. Sei lá. No mínimo, não deve ser ruim, né?

Mas eis que fui rolando a timeline e uma hashtag me chamou a atenção: #PopAfrica. Aparentemente, foi esse o tema escolhido para a festa esse ano. Historicamente, a revista sempre escolhe temas diferentes para seus bailes de Carnaval. Um jeito de inspirar as fantasias da galera, fazer todo mundo “entrar no clima”. E dessa vez não foi diferente. Foi um tal de animal print aqui, pinturas faciais e corporais ali, colar de ossos acolá. Todo mundo no clima “africano”.

E eis que a história toda começou a me incomodar. Primeiro porque não estamos falando de colombinas e pierrots. Não estamos falando de palhaços ou soldadinhos de chumbo. Nem de personagens de filmes ou de séries. Estamos falando de um continente. A ideia era fazer as pessoas se fantasiarem de um CONTINENTE. Um continente de vários povos. De várias culturas.  O problema dessa história é que se fantasiar é, por natureza, caricaturar, imitar, estereotipar. E foi isso que rolou solto ontem.

Mas vamos tirar as fantasias de cena e falar de outra coisa. Vamos falar sobre a revista que deu a festa e que escolheu o tema. Fiquei lembrando de um post muito bom que vi outro dia no Modices sobre representatividade brasileira (e negra) nas capas da Vogue. Aí resolvi dar um Google rápido pra descobrir quantas modelos negras a revista estampou nas bancas no ano passado. Em dois cliques achei a minha resposta: UMA, mas já vou avisando que ela não é brasileira. Naomi Campbell foi estrela de outubro ao lado de Ricardo Tisci e Mariacarla Boscono. Fora isso, Camila Pitanga e Gloria Maria apareceram na capa de abril em meio a 9 outras pessoas (brancas).

O meu sentimento foi coroado por declarações como a da Sabrina Sato em seu Snapchat. Deitada no sofá de casa depois da festa a apresentadora soltou um: “Queria ser africana e andar assim.”. Essa era a roupa dela:

Baile_Vogue

Ou de Yvan Rodic (nome por trás do badalado blog de streetfashion Facehunter) que também se pronunciou no Snapchat: “Uma festa com tema Africa, num país tão miscigenado e 90% dos convidados são brancos.”

Eu fiquei tão encafifada com tudo isso que resolvi lançar o debate no meu Snapchat e perguntar às leitoras o que elas acharam de tudo isso. Aqui vão algumas das respostas que recebi:

Fiquei com a mesma sensação e fui até conversar com amigas negras pra saber o ponto de vista delas sobre isso. O que as incomodou é que, sim a Africa é pop, mas o negro não parece ser. Além disso, incomodou a sensação de que a Africa inteira é uma coisa só e não um continente cheio de culturas diferentes.

“Eu achei de muito mal gosto. É péssimo, é colonizador e não é uma homenagem. É usar uma cultura (uma não né, porque o continente africano tem milhares de culturas, começa por aí) e transformar em fetiche, em fantasia. É se aproveitar do africanismo, enquanto africanos e descendentes são deixados de lado em tudo. É transformar em brincadeira de faz de conta elementos de resistência.

Uma pena que o racismo ainda seja tão presente, mesmo quanto não nos damos conta, ele tá ali.

“Tema estranho, apropriação cultural, tudo de absurdo. Ser negro tá na moda, desde que você seja branco.”

O assunto tá lançado. Não consegui ficar quietinha porque quando um troço começa a martelar na minha cabeça eu não consigo muito controlar. E esse aqui é o meu lugar de jogar pro mundo as discussões que acho que valem a pena serem discutidas.

Então vamos discutir? O que que você acha disso tudo?