Moda com história, diretamente da Africa do Sul
19 de Fevereiro de 2016 POR Jojo COMENTA AQUI!

Tem quase um ano que o UASZ mudou. Parou de ser um diário de looks pra virar um site de conteúdos relacionados a moda, consumo consciente e lifestyle.

E uma das coisas que eu acho mais legais desse movimento foi ter me trazido a possibilidade de convidar gente diferente pra escrever aqui. Começou com a Rê, amiga querida e cheia de ideias na cabeça, pontos de vista fortes sobre as coisas e muitas histórias pra contar. Depois vieram a Carol e a Carlinha, do Assinatura de Estilo, contando um pouco sobre a experiência delas como consultoras de moda e como mães que não querem deixar a moda de lado.

Pois bem, esse grupo acaba de crescer. É com prazer que eu apresento pra vocês a Julia Franco. Eu vou deixar ela contar a história dela já já, mas antes vou só fazer uma introdução.

Eu conheci a Julia por email. A gente nunca se viu, nem ouviu a voz uma da outra. Mas no primeiro email que ela me mandou eu entendi a Júlia. Entendi a trajetória dela, suas dores com o mundo da moda, seus sonhos de contribuir pra um mundo melhor. E foi esse email que me fez convidá-la pra escrever aqui no blog. Então, sem mais delongas, vou colocar ele aqui pra vocês entenderem do que eu tô falando.

Oi Joanna,

Tem um tempão eu acompanho o  seu blog. E, desde então, sempre passo pelo UASZ pra dar uma espiada e ler seus posts.

Eu sempre fui interessada em comportamento e moda, mas só depois de me formar em Hotelaria que decidi trabalhar na área. Pouco tempo depois, estava estudando Marketing de Moda em Milão e, ao me formar, comecei a trabalhar como RP para o Roberto Cavalli. Aquela história de moda consciente não estava tão presente no meu dia a dia (estava completamente fora do meu dia a dia na verdade).

Mas a vida dá aquelas reviravoltas maravilhosas que te fazem perder o chão. Me apaixonei por um guitarrista da África do Sul. Pedi demissão do meu emprego e vim correndo para Durban. Com a mudança, meus conceitos de vida também mudaram. Apesar de ser um país em desenvolvimento e termos uma vida confortável, a desigualdade reina. Sabe você r ao supermercado ao meio dia, comprar um belo de um peixe fresquinho e, na hora de pagar, você morrer de vergonha porque o cara na sua frente está contando as moedas pra pagar o pão de forma e um litro de leite? Pois é, aconteceu comigo há uma meia hora. Sempre acontece. Sempre.

Junta tudo isso com os ataques xenófobos que aconteceram aqui em Durban (onde os zulus mataram e expulsaram milhares de imigrantes, depois que o Rei Zulu veio a TV dizer que o problema da falta de empregos era porque a Africa do Sul recebia muito imigrante), com notícias de sírios sofrendo por não ter para onde ir, nem como sustentar suas famílias e a consciência batendo à porta. Ficava pensando: poxa, se eu tive a oportunidade de estudar em uma ótima escola, pude trabalhar com designers e profissionais que fazem tudo acontecer, por que não usar isso a favor de mais pessoas?

Baixei o True Cost e, depois de chorar por horas, entrei em contato com eles e paguei o valor do meu aluguel para a causa. Talvez por vergonha ou tentando limpar a consciência. Então resolvi fazer mais.

Desde que cheguei aqui (há quase três anos), trabalho e dou consultoria em diversos trabalhos sociais. Mas tem um que realmente mora dentro do meu coração e tenho me dedicado a tentar viabilizá-lo há quase dois anos e agora ele está, finalmente, nascendo.

O programa tem três bases: 

  • moda (fashion)
  • empoderamento de mulheres (people)
  • dar voz a gerações e culturas que já não são ouvidas (stories)

De um lado, temos duas professoras de costura ensinando mulheres que querem mudar de situação e aprender a costurar, tricotar, fazer crochet. Assim, elas podem aprender uma profissão e sustentar suas famílias. Lá, damos o material, treinamento e todo o apoio educacional para que possam abrir seus próprios negócios quando estiverem preparadas. 

Do outro lado, estão as senhorinhas que moram no asilo municipal. Elas tricotam, fazem crochet e bordados enquanto conversam e tomam chá da tarde. Com elas, montamos (digo no plural porque tem muita gente envolvida, inclusive um designer que é PhD em educação) uma coleção com tecidos locais e mão de obra 100% consciente.

E assim nasceu a Shwe, The Wearable Library (em tradução livre: ‘A Biblioteca Usável’).

Shweshwe4

Sylvia- Tafta

Shweshwe2

Mavis- Tafta

O projeto está em constante crescimento e muita coisa boa anda acontecendo. A Universidade de Durban ofereceu seus professores para ajudar e aprofundar a qualificação de nossas colaboradoras e artesãs. Estamos começando a trabalhar com um grupo que treina deficientes físicos a costurar. Firmamos parceria com outro grupo de mulheres que saíram de uma vida de abusos e se apoiam no corte e costura para sustentarem suas famílias. Por fim, um mini documentário do projeto está sendo editado para a TV local daqui. 

Muitas novidades incríveis pra gente, mas que, mais do que tudo, nos mostram que o trabalho em grupo, ajudando o próximo, é o que nos faz fortes e com aquela certeza que estamos no caminho certo (mesmo com o constante frio na barriga!). E eu acho lindo ver todo esse processo brilhando e mudando vidas.

Como tenho visto que o blog tem tomado novos (e super conscientes) rumos e estamos prestes a colocar o site da Shwe no ar, queria que você conhecesse e pensasse se é possível realizarmos um trabalho colaborativo. Assim, mais gente fica sabendo da Shwe e a gente consegue ampliar e ajudar mais e mais mulheres que precisam e contam conosco.

Beijo e obrigada desde já, Julia”

Eu li o email da Julia algumas vezes e, antes mesmo de abrir as fotos que ela tinha me mandado, eu já tinha comprado a ideia. Mas, confesso, quando finalmente abri o arquivo, não estava preparada pra tamanha beleza, força e originalidade.

Shwe- The Wearable Library

Shwe- The Wearable Library2 (1)

Shwe- The Wearable Library4

Shwe- The Wearable Library- Main Picture

Vale realmente à pena entrar no site, passear pelas histórias das costureiras, entender o projeto e entrar na loja virtual onde é possível comprar todas as peças produzidas por essas senhoras cheias de talento.

Por essas e outras, eu tenho o maior prazer em apresentar a Shwe aqui no UASZ. Mais ainda, me sinto honrada em informar que a Julia é a nossa nova colaboradora. Diretamente de Durban, vira e mexe, ela vai estar por aqui contando sobre os projetos em que participa, sobre moda africana e sobre o que mais ela quiser falar.

Espero que vocês gostem. Seja bem vinda, Ju.