O genderless e a liberdade de se expressar através da moda
26 de Maio de 2016 POR Jojo COMENTA AQUI!

Eu tinha pensado em colocar esse tópico dentro do último Alimento pro Pensamento, mas a verdade é que essa semana a gente já tinha coisas demais pra falar e essa aqui ia tomar um tempo. Ou seja: post ia ficar gigante e, mesmo assim, a gente não ia conseguir tratar desse assunto com a devida atenção.

Bem, pra você que tava no buraco do Bin Laden e sem acesso a internet na última semana, eu explico. Há alguns dias, a C&A divulgou sua nova campanha pro Dia dos Namorados. Essa aqui:

Eu não tô aqui pra glorificar a campanha. Acho bem legal a ideia de misturar roupas e transmitir a mensagem de que homens e mulheres podem se vestir da forma que bem entenderem. Por outro lado, sinto falta de algumas coisas. Um casal homossexual, por exemplo. Mas um dia a gente chega lá.

Mas sim. A C&A tocou no assunto da moda sem gênero pré definido. E não é a primeira vez que eles fazem isso. Na campanha de lançamento desse novo conceito da marca (essa aqui) já se via um homem colocando um vestido.

Pois, dessa vez, o assunto gerou ainda mais polêmica. Uma cantora gospel (que eu não vou citar o nome porque realmente não quero dar Ibope pra ela) convocou um boicote à C&A por conta da campanha. Nem consigo dizer a justificativa que ela deu para o boicote porque realmente pra mim não faz sentido.

O tal boicote gerou muito barulho na internet, o que, por sua vez, me fez ter vontade de escrever esse post aqui.

A verdade é que ainda tem sim algumas marcas falando sobre o assunto, mas poucas realmente fazendo. A própria C&A foi alvo de críticas ao gerar a expectativa no público de que uma coleção genderless estaria nas lojas, quando, na verdade, o produto continuava o mesmo. A Zara também sofreu ao criar um enorme rebuliço sobre coleção sem gênero que, no fim das contas, não passava de peças básicas que tinham uma cara bem unissex.

A C&A pode estar simplesmente apostando no boca a boca que a essa discussão rende pra marca, mas tem um assunto muito sério por trás disso tudo que vale sim ser discutido e defendido (e quanto mais marcas e pessoas ajudarem na discussão melhor). Mais do que qualquer coisa, a moda sem gênero representa a nossa liberdade de verdadeiramente nos expressarmos através da roupa que vestimos. E isso é precioso.

Então, aqui vão algumas pessoas que estão levantando essa bola de um jeito autêntico, honesto e real. Espero que alguma delas te inspire a também defender essa liberdade.

1. ESSA MOÇA

Não, a meia dela não era tie dye rosa. Isso é sangue. Depois de ser obrigada a usar um sapato de salto alto para trabalhar como garçonete, Nicola terminou seu expediente com os pés assim. Sim, é nisso que dá OBRIGAR pessoas a usarem coisas que elas não querem ou não se sentem bem usando. Só porque é mulher tem que saber andar no salto e ainda aguentar o dia todo em cima dele? NOT.

2. ESSES CARAS

Uma revista propôs um desafio para uma série de seus jornalistas: passar um dia todo em cima de um salto. Pois é, se pra nossa amiga aqui em cima não foi fácil, imagina pra esses caras que nunca tinham subido num salto na vida.

A verdade é que, via de regra, salto alto é um troço desconfortável, pra homem e pra mulher. Então, se, mesmo com o desconforto, o cara quiser usar um salto alto, quem sou eu pra dizer que ele não vai usar?

3. A LENA DUNHAM

Segundo a própria, ela está passando por uma fase de moda masculina. Lena foi vista em diversas ocasiões nos últimos meses. As duas mais recentes foram o Met Gala e o Arts Connection Gala. Em ambas as ocasiões, Lena apostou no terninho para desfilar pelo tapete vermelho.

LenaDunham

Sobre a nova fase, a escritora/ roteirirsta/ diretora/ produtora/ atriz comentou: “Há algo muito positivo em simplesmente aparecer num evento com uma roupa em que você pode realmente relaxar e se sentir confortável vestindo.”

Lena, myga, concordo super. Tem dias que a gente tá com mega disposição pra se espemer dentro de um vestido de gala. Tem dias que não e tudo bem. Tá linda e elegante do mesmo jeito.

4. A LENA DE NOVO (JUNTO COM TODA A GALERA DO DOC “SUITED”)

Parte da inspiração para essa nova fase usando ternos vem de seu envolvimento com o documentário Suited, em que Lena foi uma das produtoras.

O documentário acompanha o dia a dia na Bindle&Keep, uma empresa baseada no Brooklyn, em Nova Iorque, que desenvolve alfaiataria para diversos clientes, inclusive pessoas da comunidade transgênero. Os donos do negócio são Daniel Friedman, ex arquiteto, heterossexual, que começou a fazer ternos pensando em ganhar um din din com a galera de Wall Street. Ele então conheceu Rae Tutera, homem trans que foi seu aprendiz no afício da alfaiataria e abriu seus olhos para o potencial do mercado transgênero, um grupo que, até então, não era enxergado pela indústria da moda e tinha que se contentar em usar roupas que não lhe serviam direito.

Suited Sundance Poster

O diretor Jason Benjamin, deu uma entrevista maravilhosa um pouco antes do filme ser mostrado em Sundance. Nela, Jason afirma que acredita que muitas pessoas vão conseguir se identificar com os personagens mostrados no documentário.

“Eu espero que todos na platéia consigam entender que essas são pessoas, como eu e você, sofrendo com várias das coisas que eu e você sofremos. Quem realmente se olha no espelho e se sente 100% confiante com sua própria imagem?”

Suited estréia na HBO em Junho e eu já tô ansiosa pra ver.

5. SHAYNE OLIVER

O nome por trás da marca de street wear Hood by Air foi um dos primeiros caras a questionar os limites do gênero na moda atual. Seu desfile em 2013 é considerado por muitos o momento inicial desse movimento.

ShayneOliver

Sua moda cheia de personalidade e absolutamente contemporânea rendeu a Shayne a indicação a alguns dos mais prestigiados prêmios da moda mundial, como o CFDA Swarovski Award.

6. JADEN SMITH

Provavelmente você se lembra de Jaden como aquele menino fofo que atua com Will Smith em À Procura da Felicidade (aquele filme que, se você possui um coração, é impossível não chorar).

Pois Jaden cresceu e hoje é conhecido também pelo seu estilo todo próprio de se vestir. Jaden é a cara de uma nova geração muito menos preocupada com rótulos do que as anteriores. Basta jogar seu nome no Google para se deparar com centenas de fotos em que Jaden aparece com looks que questionam os tradicionais limites de gênero (aliás, é um look mais maravilhoso que o outro, inspiração pura).

JadenSmith

Uns podem olhar pra Jaden como um adolescente rebelde que já já passa dessa fase. Eu prefiro olhar pra ele como um cara que realmente não se incomoda com a opinião alheia no que diz respeito ao que ele veste. E eu acho isso uma baita lição pra gente exercitar diariamente.

7. LINIKER

O talento de Liniker (assim mesmo, sem artigo na frente, sem ser “o” ou “a”), sua voz poderosas e letras profundas já seriam o suficiente para fazer a gente parar e prestar atenção. Mas junte esses elementos a uma personalidade forte, a uma maneira de se vestir própria e a uma auto-aceitação impressionante para sua tão pouca idade e temos um fenômeno.

Mas Liniker fala melhor sobre si do que eu poderia falar. Então deixemos por conta dele:

8. DEISI WITZ E IGOR BASTOS, DONOS DA OCKSA

A Ocksa nasceu em 2013, em Porto Alegre.

“Propomos uma estética atemporal e sem gênero, com silhueta sofisticada. A Också procura desenvolver um estilo para indivíduos multifacetados, livre de preconceitos”, palavras de Deisi Witz que, junto com Igor Bastos criou a marca.

Också é contemporânea e atemporal, linda e, sim, sem gênero.

Ocksa

Esse post aqui não teve a intenção de te incentivar a se vestir de outra maneira. A adotar a moda sem gênero na sua vida. Pelo contrário, esse post aqui quer mostrar que a diversidade é bonita. E a liberdade de vestir o que cada um quiser é essencial.

Moda é auto-expressão. É uma ferramenta pra expressar a sua individualidade. E cada um é de um jeito. Esse post é pra que mais e mais pessoas consigam, cada dia mais, usar a moda pra dizer realmente quem são. Sem julgamentos.

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