Obrigada, minha SanFran
2 de setembro de 2016 POR Jojo COMENTA AQUI!

Há um ano e meio, depois de 13 horas de vôo, o avião pousou num aeroporto branco, asséptico. Ainda meio entorpecida pelo sono desconfortável do trajeto, fui capaz de tomar a consciente decisão de pisar pra fora do avião com o pé direito.

Era o início de uma nova vida. Uma vida com um novo emprego (um que eu mesma inventei pra mim). Uma vida casada. Uma vida do outro lado do continente, numa cidade que eu mal conhecia.

A sensação de pisar naquela nova terra era a mesma de estar indo morar com um carinha que, até agora, você só conhecia de “Oi, tudo bem?”. A gente nem tinha ficado. Eu não sabia do que ele gostava, o que fazia nos finais de semana, o que ele queria da vida. Eu não conhecia sua família, nem ele a minha e nenhum dos dois estava nem perto de dizer “Eu te amo”. Mas lá estava eu, com quatro malas que carregavam o peso de uma vida, pisando com o pé direito nessa nova casa.

E foi assim que eu e São Francisco começamos a nos conhecer. Como participantes de um Big Brother da vida real, obrigados a conviver juntos 24hs por dia e se descobrir na marra, mesmo sem ter muita intimidade.

Mas, tal qual os participantes do reality show, eu e São Francisco logo logo encontramos um bando de afinidades e, na primeira semana de confinamento, lá estávamos nós, abraçados, batendo papo na piscina, flertando nas festas, convidando um ao outro pra dormir no quarto do líder.

Uma das coisas mais lindas que a cidade me trouxe foi redescobrir a vida ao ar livre. Eu vim diretamente de São Paulo e, por mais que ela esteja melhorando a olhos vistos com iniciativas como a Paulista aberta aos finais de semana, ainda tem muito chão pra andar. Já em SanFran (olha a intimidade…) a história é outra. Não tem um bairro em que não se encontre um parque. Não tem um parque em que não se veja gente. Gente tomando sol na grama, jogando bola, tomando um vinho (não pode, mas o povo toma), fazendo piquenique, churrasco, andando de bicicleta, patins, skate. E não há neblina nem vento frio que tire a vontade desse povo de aproveitar o dia.

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E os museus? De arte moderna a biologia, passando por ciências, até cultura asiática, judaica, africana. Tem museu de tudo.

E como não falar da comida? Das ostras frescas que vem logo ali de Point Reyes, aos peixes pescados no dia ali na Baía, as patisseries que dão água na boca, a profusão de comidas das mais variadas etnias (vietnamita, árabe, burmanesa, coreana, chinesa, italiana, japonesa, mexicana). Junte essa variedade a uma cultura que valoriza a feira do bairro, os ingredientes locais, orgânicos, frescos. Eita que deu até fome.

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Tudo isso numa cidade que, sim, faz um friozinho e não tem lá muito verão, mas que está rodeada de possibilidades. Em uma hora dá pra beber vinhos nas vinículas de Napa. Em três dá pra estar esquiando em Tahoe, ou acampando no Big Sur, ou escalando uma montanha no Yosemite.

Mas, como em qualquer relação, a gente também teve nossos percalços. Descobrir um ao outro tem dessas coisas. A gente dá de cara com coisas que a gente ama e com outras que… nem tanto.

Tinha parque e museu, mas era longe dos amigos. E fazer amigos novos, amigos mesmo do peito, não é coisa fácil, demora um tempo. Tinha praia com leão marinho e golfinho, mas não tinha aquele calor que te faz ter vontade de se jogar no mar. Tinha comida burmanesa, mas não tinha nem um acarajezinho pra contar a história. Tinha a vista da Golden Gate, mas tinha um aluguel que, eu vou te contar, não era moleza.

Não é fácil ir morar na casa do crush sem nem conhecer ele direito. Morar fora (seja onde for) é para os fortes, para os de coração aberto e, mesmo assim, vai ter dias difíceis.

Eu tive a sorte de conseguir atravessar o continente na companhia do homem da minha vida. E quando eu ficava mal, ele ia lá e me levantava. E  quando ele ficava mal, era a minha vez de estender a mão. Confesso que se não fosse a nossa parceria cotidiana, eu não sei se teria aguentado. Tive a sorte também de, com tempo, fazer muitos amigos, desse tipo que vira família, sabe?

Mas a verdade é que esse ano e meio foi uma das melhores fases da minha vida. Mais do que me mostrar uma nova cidade, esse carinha chamado SanFran me mostrou mais coisas sobre mim e sobre o mundo do que eu poderia imaginar. Me fez rever as minhas prioridades, me fez traçar novos planos, me fez ter coragem de ir lá buscá-los (nada como uma cidade de empreendedores pra te fazer querer abraçar o mundo).

SanFran também me fez ter mais empatia. Entender, respeitar, admirar e celebrar as nossas diferenças. Uma cidade que ganhou por puro merecimento seu título de revolucionária. Revolucionou com o movimento hippie, revolucionou com a luta pelos direitos dos homossexuais, revolucionou com a tecnologia, com a inovação.

Tudo isso pra dizer que hoje o meu coração tá partido. Ontem foi o meu último dia morando nessa cidade que eu aprendi a chamar de casa.

Sim, estamos novamente nos mudando. Mas calma! Vou fazer suspense. Vim passar férias aqui no Brasil e só conto pra onde vamos quando eu embarcar pra lá no fim do mês. Enquanto isso, aguardo os palpites de vocês aqui nos comentários. Uma dica: não estamos voltando pro Brasil.  Mas já queria deixar registrado que, apesar do coração em frangalhos, estamos MUITO felizes e empolgados com a mudança.

Mas hoje eu não quero falar de futuro. Quero mesmo é tirar um tempinho pra curtir a minha fossa e dar o devido valor a esse tempo tão lindo que eu vivi.

Ontem, enquanto olhava o sol se pôr pela última vez ali atrás da Golden Gate e as lágrimas caiam volumosas e desavergonhadas dos meus olhos, tentava convencer a mim mesma de que a minha partida não era um término. Eu e SanFran estamos só dando um tempo. Um tempo que pode durar meses, anos, décadas. Mas um dia a gente volta um pros braços do outro, e aí vamos nos descobrir novamente. Ele e eu diferentes.

Enquanto isso, só tenho mesmo a dizer que te amo, SanFran. E obrigada por tudo.

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