A lindeza do trabalho manual e os sapatinhos que vieram na mala
26 de novembro de 2017 POR Jojo COMENTA AQUI!

Passeando pelas ruas da Medina de Marrakesh, uma das coisas que mais me chamou atenção foi a riqueza do trabalho manual do Marrocos. Passear pelas vielas dos souks é como voltar no tempo pra uma era pré revolução industrial, pré plástico, e definitivamente muuuuuuito pré fast-fashion. Uma era em que fazer um produtos, seja uma panela de barro, uma luminária de cobre ou uma sacola de palha, levava tempo e dedicação. Uma era em que coisas eram feitas por pessoas, por mãos hábeis ao invés de braços mecânicos.

Eu teria ficado dias inteiros rodando os mercados e ruas, fuçando cada lojinha, conversando com cada vendedor, entendendo quem faz, como faz, de onde vem cada peça. E, sem dúvida, teria levado mais que uma mala de mão pra conseguir trazer todas as coisas que me encantaram o coração nessa viagem.

Infelizmente, não deu pra fazer isso. Marrakesh guardava muitos outros tesouros e a gente teve que usar bem o tempo pra conseguir explorar tudo (ou quase). Mas sempre que dava, entre uma palácio e outro, entre um jardim e um museu, eu dava uma fudiginha pra fuçar a lojinha mais próxima.

E foi nessas que eu esbarrei com a lojinha de sapatos mais linda de toda essa Marrakesh. Ela ficava pertinho do nosso hotel. Era praticamente uma portinha com uma vitrine pequena lotada de modelos coloridos, todos de palha trançada.

Por dentro a loja deve ter uns 6 metros quadrados, divididos em dois ambientes. Um é onde fica o mostruário, uma espaço pequeninho com paredes cobertas de sapatos, de todos os modelos, de todas as cores. Numa das paredes, os mais básicos, de palha cor de palha, de todos os tamanhos.

No outro ambiente, o senhorzinho dono da loja está cortando solas, trançando palha, fazendo cada modelo ali mesmo na sua frente. Tudo isso enquanto faz cobranças pra outras clientes e te instrui onde achar o tamanho que você quer do modelo que você gostou.

Eu confesso que entrei nesse lugar e fiquei em êxtase. Os sapatos são lindos, de uma elegância modesta que é difícil de explicar. Mas o que é mais legal é saber que nenhum sapato naquela loja inteirinha era igual ao outro. Mesmo modelos iguais eram diferentes. E essa é a beleza da mão humana, dessa imperfeição perfeita que é o resultado do trabalho  manual. O trançar da palha vai ser sempre ligeiramente diferente, lindamente diferente e humano.

Fiquei dentro daqueles metros quadrados durante uns 40 minutos. Em parte porque o meu pé é grande e tive dificuldade em achar coisas que me cabiam – acho que os pés de moças marroquinas devem ser mais delicados que os meus. Em parte porque achei o ambiente encantador.

Duas moças francesas dividiam comigo o único banquinho da loja e a gente ia rodiziando o uso pra todo mundo conseguir sentar e experimentar os modelos. Elas me contaram que frequentavam a loja há tempos e sempre que voltavam a Marrakesh passavam por lá simplesmente porque são os melhores sapatos da cidade.

“Comprei o meu primeiro par há cinco anos e ele ainda está inteirinho.” me disse uma delas. Recebi esse comentário como o empurrãozinho que faltava pra deixar o meu rico dinheirinho marroquino todo na mão do sapateiro.

Encontrei dois pares que eu caí de amores e que, por coincidência, eram da numeração certa pro meu pézinho de ogra. E mais um que eu amei de paixão e não tinha o meu número. Fui até o balcão com o modelo em mãos e cara de gatinho de botas e, em tom de súplica, usei todo o meu francês pra pedir pro moço fazer um par pra mim que eu buscaria no dia seguinte. Que mal faz perguntar, né não? Ele pensou 2 segundos e disse que tudo bem. No dia seguinte eu passei por lá e busquei o terceiro par, feito só pra mim.

E foi assim que voltei com três pares de sapatos de palha pra Londres. Vou usar muito no inverno de Londres? Não. Confesso que não foi das compras mais racionais. Mas me deixei levar. Em parte porque os modelos eram um desbunde mesmo. Em parte porque eu queria participar daquele ritual, daquela cultura, daquele modo de produzir.

Bora então a esses modelinhos que conquistaram o meu coração?

O primeiro é esse modelo tipo mule, de bico fino, em lilás e palha. Suuuuper confortável, super elegante. Já vejo usando uma calça jeans com a barra dobrada, camisa branca e essa belezura nos pés.

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Olha a lindeza que é esse trabalho manual com o zigzag vazado. Juro que tô aqui me coçando pra fazer alguma viagem pra um lugar quentinho só pra poder usar.

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O segundo é essa lindeza aí embaixo. Também nesse modelinho mule, mas com a ponta mais arrendondada. Eu simplesmente amei essa cor. E o mais legal? A palha é toda pintada à mão em um processo de tingimento artesanal. Por isso que todos os modelos ficam com essas imperfeicões no tingimento, com alguns pedaços mais claros e outros mais escuros.

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E esse pompom na frente? Tem coisa mais amorzinho do que isso? Esse modelo já fico pensando em usar com umas collotes bem amplas brancas, com camisa branda e blaser, num look bem chique e ryco. Amo essa ideia de combinar o metido a ryco com o rústico, alegre, lindamente imperfeito.

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Pra finalizar, o modelo que eu fui lá buscar no dia seguinte. Eu me apaixonei por esse modelo meio Alladin, com a pontinha virada pra cima e vazado. Mas acho que o que mais me chamou atenção foi esse rosa choque lindo de viver. Olha essa coisinha.

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Vê se não é chique. Imagina com uma saia midi estampada, num look desses em que tudo é muito e maravilhoso. E o que é confortável?

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Abri espaço na minha malinha de mão e trouxe esses três pares pra casa.

Único arrependimento? Não fotografei a lojinha, nem o senhor sapateiro. Tinha pego o cartão dele, mas nas idas e vindas, tira e bota coisa da bolsa, o cartão acabou ficando em alguma viela solto por aí. Mas, pra você que tá planejando ir lá pra Marrakesh, eu sei direitinho onde é: a loja fica na Rue Riad Zitoun el Jdid do outro lado da rua do Hamann Ziani.

Pra quem não tá planejando ir lá, ainda assim fica a minha dica: bora valorizar o trabalho do artesão local? O trabalho manual?