Você só usa 44% do seu armário
25 de Abril de 2018 POR Jojo COMENTA AQUI!

(se prepara que esse post contém muitos números)

44%. Essa é a média de roupas que a gente efetivamente usa do nosso armário. Pelo menos é o que mostra uma pesquisa realizada aqui no Reino Unido.

E eu não imagino que no Brasil seja muuuito diferente disso. Talvez um pouco mais, talvez um pouco menos.

44%. O que significa que 56% das nossas roupas estão no armário acumulando poeira. Sendo comidas pelas traças. Mais da metade do que a gente tem, pra nada. Ocupando espaço nas nossas casas. Nas nossas vidas. Espaço inútil. Peso inútil. Dinheiro jogado fora.

A mesma pesquisa revela que as mulheres levam em média 17 minutos para escolher uma roupa pra ir trabalhar. Não, não tô falando pra se arrumar, tô falando pra escolher a roupa. Não inclui tomar banho, nem secar o cabelo, nem se maquiar. Tô falando de escolher que peças usar, olhar pra dentro do armário e tomar uma decisão sobre o que combinar com o que.

Esses 17 minutos – que, em apenas 1 ano, viram mais de 100 horas – acabam se tornando fonte de stress. Muitas vezes, são eles os responsáveis por a gente chegar atrasada no trabalho, por a gente brigar com quem a gente ama, por a gente se sentir feia, inadequada, sem nada pra usar.

Mas como pode isso? Como a gente tem tanta coisa, usa tão pouco e acha que nunca tem nada? Parece maluco, mas essas três coisas estão absolutamente interligadas.

A gente tem muita coisa porque a gente é viciado em ter coisas novas. A gente não usa as coisas que tem porque a gente nem conhece tudo o que tem, tá tudo lá no fundo do armário, às vezes com etiqueta e tudo. A gente acha que nunca tem nada porque, na correria do dia a dia, a gente não tem tempo de revirar o armário, encontrar os tesouros e fazer combinações novas.

A mesma pesquisa que eu falei aqui em cima mostrou que o armário médio aqui na Inglaterra é composto de 152 peças. Cento e cinquenta e duas! É peça pra caramba! Não é à toa que esses 17 minutos passam voando e, quando a gente vê, já tá colocando aquele look velho de guerra que a gente não aguenta mais, mas sabe que funciona.

E assim vamos todas perdendo a noção do que temos e criando uma percepção de que não temos nada. E dá-lhe cartão de crédito pra alimentar esse ciclo.

Mas se fosse só o cartão, né?

A verdade é que gastamos menos dinheiro do que nunca pra consumir roupas. Não porque estamos comprando menos, mas porque roupas nunca foram tão acessíveis. E isso te permite alimentar esse ciclo aí. Afinal, mais fácil comprar uma blusinha nova de 30 reais do que tentar dar um jeito naquele armário zoneado.

Mas o custo desse ciclo vai muito além do nosso bolso. Esse custo vai parar na mão de quem produz aquela blusinha de 30. Nas condições de trabalho de fábricas na Ásia que exploram adultos e crianças.

Ontem fez 5 anos do desastre de Rana Plaza, em que o prédio que abrigada diversas fábricas de roupa desabou matando 1.134 trabalhadores em Bangladesh. Lá dentro, homens e mulheres trabalhavam sem nenhuma segurança, em condições de trabalho deploráveis.

A gente sempre tem esperança de que, quando uma coisa assim acontece, ela vem pra trazer mudanças. Pra prevenir que mais pessoas percam suas vidas. De fato, logo depois do desastre, com sindicatos mais organizados, os trabalhadores da indústria têxtil de Bangladesh conseguiram a aprovação de um aumento de salário. Mas o perigo é que, em meio a uma era de notícias relâmpago, episódios como Rana Plaza entrem no esquecimento e não movimentem a mudança necessária pra mudar a cadeia de produção de uma vez por todas. Prova disso é que cinco anos se passaram, e nunca mais os trabalhadores de Bangladesh viram seus salários serem aumentados novamente.

E assim o ciclo se fecha. Metade do seu armário sem ser usado. E lá do outro lado do mundo, gente produzindo a nova peça que vai entrar no seu armário por 30 reais para logo depois ser esquecida. E lá vai você comprar de novo.

Precisamos parar de alimentar esse sistema. Parar de carregar esse peso nos nossos armários e nas nossas vidas. Parar de gastar nossa energia de manhã pra escolher a mesma roupa sempre. Parar de desperdiçar a energia de gente que está sendo explorada.

Amanhã de manhã, aproveite os seus 17 minutos pra descobrir uma roupa aí dentro do seu armário. Uma dessas que estão ali naqueles 56% que você não usa. Talvez você consiga se vestir em 10. Talvez leve mais tempo. Mas vai ser mais econômico, mais divertido e mais consciente.