Prazer, essas são as minhas rugas
22 de agosto de 2018 POR Jojo COMENTA AQUI!

Ultimamente tenho me olhado no espelho e estranhado como o meu rosto mudou no último ano.

Por dentro eu ainda me sinto uma menina, não diferente daquela que me olhava através do espelho dois, três, cinco anos atrás. Mas a imagem que me olha de volta hoje é diferente.  As linhas ao redor dos olhos que só apareciam quando eu sorria, agora permanecem  à mostra quando o sorriso se vai. Fraquinhas ainda, quase imperceptíveis pra quem observa a uma certa distância, mas visíveis para mim, que me vejo diariamente bem de perto.

No incrível stand up, Nanette, da australiana Hannah Gatsby (disponível no Netflix – se você não viu, veja, prometo que não vai se arrepender), ela compartilha com a platéia seu ódio por Pablo Picasso. Hannah explica que Pablo sofria do que ela caracteriza como a doença mental da misogenia. Entre outras coisas, ela conta que é sabido que o pintor, lá pelos seus 40 anos, fez sexo com uma menina menor de idade. Marie-Therése Walter tinha 17 anos quando eles se conheceram, portanto legalmente menor. Picasso, era casado na época e estava no ponto mais alto de sua carreira. Sobre o fato Picasso falava com naturalidade: “Foi perfeito, eu estava no meu auge da minha vida e ela no auge da dela.”

Depois de ver Nanette, eu também passei a odiar Picasso. Mas por mais que eu aplauda Hannah e seu posicionamento sobre o pintor, não consigo evitar que as palavras de Picasso ecoem dentro de mim:

Será que é verdade? Será que com 34 eu já passei do meu “auge”?

Não, não acho que ele tenha sido aos 17. Mas, voltando ao espelho, me pergunto quando teria sido. Aos 25? Aos 30? Mês passado?

A verdade é que afastar da cabeça a noção de que o auge ficou para trás é bem difícil. Simplesmente porque o mundo está do lado de Picasso. Da ginecologista que insiste em me lembrar que “é melhor acelerar isso aí porque depois dos 35 qualquer gravidez  é considerada geriátrica”, até os olhares de estranhamento que continuam a me perseguir por conta da vasta quantidade de cabelos brancos que eu não faço questão de esconder.

Na mídia, nas redes sociais, não há lugar para velhice feminina. Sim, com as rugas masculinas somos uma sociedade bem mais generosa. Lembro como se fosse ontem quando as emissoras no Brasil começaram a investir em equipamentos para filmagem em HD. De uma hora pra outra começamos a ver até os poros de quem estava do outro lado da tela. Natural, não é mesmo? Todo mundo tem poros. Mas o que mais se ouvia a respeito do assunto? “Eita, agora essas atrizes tão todas ferradas, vão ter que gastar uma grana com botox e cirurgia plástica. Os dermatologistas vão se dar bem!”

Esse comentário diz tanto que acho que vale a pena analisá-lo com calma. “As atrizes” no feminino, porque Deus me livre ver mulher velha na TV. “Vão ter que gastar uma grana com botox” porque afinal de contas mulher tem obrigação de se cuidar e se cuidar significa não envelhecer jamais. E, finalmente, “os dermatologistas” no masculino, porque médico bom é médico homem.

E é nessas que a mídia e, mais recentemente, as redes sociais continuam elegendo pessoas à prova de HD para ilustrarem suas telas e páginas. Mas mais cruel do que não ver a passagem do tempo espelhada no outro, é criar artifícios para que não tenhamos que nos confrontar com a passagem no tempo nem em nós mesmas.

Outro dia me peguei brincando com os filtros do Stories no Instagram. Fui do cachorro pro gatinho, passando por uma maquiagem da Kylie Jenner e me dei conta de que todos tinham uma coisa em comum: a habilidade de magicamente apagar as minhas rugas. Sim, enquanto brincamos de nos tornar animais fofinhos, somos subconscientemente seduzidas pela possibilidade de nos tornarmos 10 anos mais jovens com apenas um clique.

Sim, eu cedi à tentação. Usei os tais filtros virtuais da juventude não uma, mas inúmeras vezes. E da mesma forma, tentei levá-los para o mundo físico, saindo pela casa à caça de uma luz boa, e por “boa” leia-se: “uma luz tão forte que, assim como o filtro do Stories, tenha o poder mágico de tornar invisíveis as minhas rugas”.

E assim seguimos, perpetuando a nefasta falácia de que podemos ser todas eternamente jovens. Cultivando dentro de nós o medo de “denunciar” a nossa idade como quem estaria denunciando um crime que involuntariamente cometemos.

Mas há esperança. Vez ou outra a mídia dorme no ponto e umas velhinhas com mais de 35 acabam aparecendo por aí com (pasmem!) rugas e tudo (por favor, entenda o tom de sarcasmo). Gente como Julia Louis Dreyfus, atriz e produtora super talentosa (quem era doido por Seinfeld levanta a mão e revela a idade!), que posta fotos como essa em seu perfil no Instagram:

A verdade é que o problema é tão sério, que finalmente a indústria da moda resolveu se posicionar a respeito. Esse mês, a Condé Nast, uma das maiores editoras do mundo, dona de publicações como Vogue e Glamour, anunciou que de agora em diante passará a apenas contratar modelos maiores de idade para ilustrarem as páginas de suas revistas.

A decisão vem depois de inúmeras modelos terem vindo a público compartilhar histórias de abuso durante ensaios fotográficos. A ideia é obviamente tornar o ambiente de trabalho dentro da indústria da moda mais seguro para as modelos. Mas também indica um movimento na direção de um look menos adolescente (e às vezes até infantil) estampando cada edição.

Segundo o discurso da própria editora: “Isso não está correto, não para nós, não para os nossos leitores e não para as jovens modelos que competem para aparecer em nossas páginas. Não conseguimos reparar o passado, mas nos comprometemos com um futuro melhor.”

Nobres palavras, mas me pergunto quão verdadeiro é o empenho da indústria da moda em curar a sociedade de um mal que ela própria causou. E de que adianta contratar modelos mais velhas se continuamos a photoshopar suas imagens e apagar qualquer vestígio de imperfeição (incluindo as evidências de que elas efetivamente não tem mais 17 anos).

Ainda esse ano, o grand finale do desfile da Versace foi protagonizado por Claudia Shiffer, Carla Bruni, Naomi Campbell, Cindy Crawford e Helena Christensen, as modelos mais importantes da década de 80, todas hoje com seus 50 anos. Dá uma olhada em como elas estavam:

Magérrimas, bronzeadas e, à essa distância, sem nenhuma ruga aparente. Com 50 anos! Será então que é essa a imagem de uma mulher mais velha que vamos passar a consumir e alemejar? Uma imagem que ao invés de oferecer identificação e conforto só reforça um padrão de beleza inatingível em qualquer idade?

Por essas e outras, me causou tanto choque quando entrei no site da Zara na semana passada e dei de cara com essa modelo aqui:

Uma mulher linda, de olhar vivo e pele reluzente, sem maquiagem e com rugas. Seu rosto marcado por linhas de expressão, seus lábios provavelmente mais finos do que um dia foram e suas madeixas permeadas por fios brancos esparsos mas evidentes.

Naveguei pelo site tendo pequenos surtos de felicidade toda vez que ela aparecia, prestando atenção em seus looks, percebendo como eles eram modernos, elegantes, interessantes e não se restringiam a roupas “para mulheres mais velhas”. Tinha cor vibrante, tinha decote, tinha pernão de fora (chamem a polícia, uma mulher de 40 ousando mostrar as pernas!).

É pouco? É. A maioria esmagadora das imagens que ilustravam o site da marca ainda era de modelos novinhas com bocões vermelhos. E mesmo as modelos mais velhas, apesar de mostrarem orgulhosamente suas rugas, ainda eram todas brancas, altas, magérrimas, femininas.

Mas é um começo e, pra mim, uma luz que fez com que eu me olhasse de outra forma. Me fez parar pra pensar no impacto positivo que eu poderia ter nas pessoas que me seguem se eu parasse de ter medo de mostrar o meu rosto como ele realmente é.

Eu tenho 34 anos. O meu processo de envelhecer está apenas no começo. Mas quanto antes eu fizer as pazes com o fato de que o meu rosto e o meu corpo vão mudar, melhor. Mais eu vou poder aproveitar o tempo ao invés de me preocupar com as marcas que ele vai deixar em mim.

Há anos venho ponderando sobre o dilema entre ser “blogueira” e envelhecer e vez ou outra me me pergunto: quando será que eu devo parar? Na minha cabeça, ser uma blogueira “velha” nunca foi uma opção. Uma vozinha chata na minha cabeça dizia: “Vai ter uma hora que vai ficar meio ridículo, hein?”. Mas aí vejo mulheres maravilhosas como a Sarah Jane Adams e trato de calar a tal voz e reafirmar pra mim mesma: você pode continuar fazendo isso até morrer bem velhinha.

Então hoje eu faço um pacto comigo mesma. De tentar ser mais generosa com o que o tempo fez e ainda há de fazer de mim. De não ter mais vergonha das marcas ao redor dos meus olhos que tanto me incomodam e de tantas outras que ainda vão marcar o meu rosto. E de, definitivamente, não permitir que elas me impeçam de fazer NADA. Vai ser um processo, mas ele precisa acontecer.

E eu te peço encarecidamente que tente fazer o mesmo. Quanto mais imagens de mulheres mais velhas reais a gente encontrar por aí, mais rápido a gente vai encontrar beleza nesse processo e assimilar que envelhecer é simplesmente normal.

Prazer, essas são as minhas rugas.